Especial Rio 2016, Legado Ambiental: Sem legado olímpico, ar do Rio é poluído e mortal

Cristo Redentor, Rio de Janeiro. Foto: www.bigfoto.com

Cristo Redentor, Rio de Janeiro. Foto: http://www.bigfoto.com

Por Brad Brooks, da Reuters, no Portal UOL

RIO DE JANEIRO (Reuters) — O ar do Rio de Janeiro é muito mais poluído e letal do que o retratado pelas autoridades, e a promessa de uma cidade mais limpa como legado dos Jogos Olímpicos, que começam nesta semana, ficou longe de se tornar realidade, mostraram análises de dados do governo e testes realizados pela Reuters.

Quando o Brasil apresentou há sete anos a sua bem-sucedida candidatura para ser o primeiro país sul-americano a sediar o evento, afirmou que os níveis de poluição atmosférica estavam “dentro dos limites recomendados pela Organização Mundial da Saúde”.

Isso não era verdade na época e tampouco é verdade agora, apesar das promessas das autoridades de que o ar do Rio estaria menos poluído devido ao controle de emissões e melhores condições do transporte público de massa antes da Olimpíada, cuja abertura será na sexta-feira.

Há anos o Rio vem excedendo os padrões da OMS para a classe mais perigosa de poluentes do ar, o material particulado (MP), que é lançado na atmosfera por milhões de veículos que cruzam as ruas e avenidas da cidade.

Em uma região metropolitana que abriga cerca de 12 milhões de pessoas, o número anual de mortos por complicações relacionadas às más condições do ar chega aos milhares. Especialistas dizem que as pessoas expostas à poluição carioca têm maior risco de desenvolver câncer de pulmão, enfarte, derrame, asma e outras doenças.

“Definitivamente, isso não é ‘ar olímpico’”, disse o patologista Paulo Saldiva, da Universidade de São Paulo (USP) e membro de um seleto comitê de cientistas da OMS que estabeleceu padrões mais rígidos para a poluição em 2006.

“Muito se falou sobre a poluição da água no Rio, mas muito mais pessoas morrem por causa da sujeira do ar do que da água”, afirmou. “Você não é obrigado a beber água da Baía de Guanabara, mas você é obrigado a respirar o ar do Rio.”

O despejo de esgoto da cidade e arredores ganhou grande atenção da imprensa, e a cidade padece com níveis endêmicos de doenças gastrointestinais nas águas onde os nadadores de maratonas aquáticas e triatlo, velejadores e remadores disputarão medalhas.

Mas pouco se falou sobre a poluição atmosférica, causada em grande parte pelos escapamentos de 2,7 milhões de veículos que lotam as vias da cidade. Mais de 75 por cento de toda a poluição do ar é causada pela frota de veículos, segundo o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) do Rio.

Dados do governo estadual mostram que, desde 2008, o ar na região metropolitana do Rio de Janeiro se mantém constantemente duas a três vezes acima do limite anual da OMS para o MP 10, chamado assim porque esse material particulado tem o diâmetro de 10 mícrons ou menos. Traduzindo-se: sete vezes menor do que um fio de cabelo.

Isso significa que o Rio de Janeiro tem o segundo ar mais poluído de todas as cidades olímpicas cujo nível de MP 10 foi aferido, a partir do fim da década de 1980. Apenas Pequim, em 2008, esteve pior nesse quesito.

Tânia Braga, chefe de Sustentabilidade e Legado do Comitê Organizador dos Jogos Rio 2016, disse que a qualidade do ar não pode ser julgada somente pelos dados de materiais particulados. De acordo com ela, outros tipos de poluentes estão apresentando níveis aceitáveis.

Essa avaliação é considerada equivocada por Saldiva. Para ele, “os danos à saúde associados ao MP 10 são os mais severos que existem” e, por causa disso, pode-se dizer que o ar da cidade olímpica é ruim.

A OMS afirma em seu site que o “MP afeta mais pessoas do que qualquer outro poluente”, que a sujeira do ar causou 3,7 milhões de mortes prematuras no mundo em 2012 e que esses óbitos ocorreram por conta da exposição humana ao MP 10.

A OMS não respondeu aos pedidos para que comentasse sobre a qualidade do ar no Rio.

Saldiva calculou que os níveis de poluição por material particulado no Rio causaram cerca de 5.400 mortes em 2014, de acordo com os dados mais recentes. Ele usou uma metodologia da OMS para realizar o cálculo.

Na comparação, a temida violência do Rio de Janeiro gera menos mortes do que isso: foram 3.117 homicídios no ano passado.

De 2010 a 2014, a região metropolitana do Rio apresentou média anual de 52 MP 10 por metro cúbico de ar, de acordo com o Inea. Para a OMS, o limite é de 20.

Jamie Mullins, professor de pesquisa econômica da Universidade de Massachusetts-Amherst, crê que a cada dez unidades acima do limite os atletas de pista têm suas performances reduzidas em 0,2 por cento.

Mullins baseou esse cálculo no exame de quase 656 mil resultados de esportistas norte-americanos de atletismo em mais de oito anos. Ele cruzou os resultados com a poluição atmosférica e o clima durante cada competição.

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“Triste realidade”

Durante os Jogos de Pequim, estudos mostraram que os níveis de MP 10 estavam em 82, bem acima do Rio. Mas em Londres, o número era de apenas 23, de acordo com dados do governo.

Em Atenas, nos Jogos de 2004, o nível era 44, contra 24 em Sydney 2000 e 28 de Atlanta 1996, disse Staci Simonich, professora da Oregon State University que em 2009 publicou um estudo sobre a poluição na Olimpíada de Pequim.

“Números como os do Rio são comuns nos países em desenvolvimento. Essa é uma triste realidade”, afirmou Simonich.

Ela lembrou que os índices de poluição variam de acordo com o clima, já que as chuvas temporariamente tiram o MP do ar. Contudo, o Rio passa por um período seco, então os índices estão no máximo.

O Inea se negou a mostrar à Reuters os dados de nível de MP para 2015 e neste ano. Mas há especialistas que questionam até a confiabilidade dos dados do instituto, já que 75 por cento das 64 estações de monitoramento automático são geridas pela iniciativa privada, que polui e as mantém em troca de obter licenças ambientais.

“A agência local deveria administrar direta e independentemente as estações”, disse James Lents, especialista mundial em poluição atmosférica.

O Inea não respondeu aos pedidos para comentar sobre as estações privadas.

Saldiva e sua principal pesquisadora, Mariana Veras, juntaram-se à Reuters para analisar os dados do governo e realizar testes independentes sobre o MP 2,5 — a partícula fina que apresenta o maior risco para a saúde.

Os dados do Inea mostram que, desde 2011, os níveis de MP 2,5 do Rio ultrapassaram os limites anuais da OMS em 83 por cento do tempo.

A Reuters realizou 22 testes de uma hora cada separados para níveis do MP 2,5: em frente ao Parque Olímpico e à Vila Olímpica, próximo à arena do vôlei de praia, em Copacabana, e do lado de fora do estádio do Engenhão, que receberá as competições de atletismo e futebol.

Não há um padrão preestabelecido para testes de uma hora para MP 2,5, mas a OMS usa o nível médio de 25 para o período de 24 horas de testes. Saldiva e outros especialistas afirmam que os resultados mostram que os atletas olímpicos, torcedores e moradores do Rio estão expostos a altos níveis de material particulado desse tipo.

O Engenhão liderou negativamente os testes, com pico de 65 MP 2,5 durante um teste no dia 30 de junho, realizado no meio da manhã, mesmo período do dia em que os atletas competirão. Copacabana acusou nível 57 no mesmo dia, enquanto que a Vila Olímpica não passou de 32.

Legado perdido

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, criou o BRT — corredores de ônibus expressos — e o governo estadual construiu uma nova linha do metrô, mas a frota de veículos da cidade ainda cresce em 100 mil carros por ano.

A Prefeitura do Rio informou à Reuters que as melhorias no transporte público vão reduzir significativamente a emissão de gases de efeito estufa; e que os BRTs já resultaram na retirada de circulação de 750 ônibus, e que 525 mil toneladas de dióxido de carbono foram removidos do ar da cidade neste ano.

Mas Saldiva disse que o sistema de transporte ainda tem muito a avançar para realmente fazer diferença na poluição, devido à vasta frota de carros do Rio. “Para os brasileiros que permanecerem aqui depois dos Jogos, não há um grande legado de ar limpo”, disse.

Com suor no rosto após uma corrida ao redor do Engenhão, o professor Lucas Pereira, de 22 anos, disse que sentiu pouca melhora: “Você consegue sentir a sujeira enquanto corre… Parece que gruda na pele”.

Perguntado se a Olimpíada ajudaria a melhorar a qualidade do ar, disse: “É uma promessa que não será cumprida”.

 

“Especial Rio 2016, Legado Ambiental” é uma série de textos publicados na imprensa global sobre a herança que os Jogos Olímpicos deixarão para a cidade do Rio de Janeiro em relação à cidadania, meio ambiente e sustentabilidade.

Sobre Antonio Carlos Teixeira

Jornalista, pós-graduado em Ciências Ambientais (UFRJ); 20 anos de experiência na área de comunicação, jornalismo, edição de livros, revistas, sites, blogs e gestão de equipes; consultor/formador do primeiro Curso de Comunicação e Jornalismo Ambiental promovido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD, São Tomé e Príncipe, setembro 2014); integrante da Delegação Oficial da Câmara Brasil Alemanha para visita à IFAT Entsorga 2010 (Feira Internacional de Água, Esgoto, Lixo e Reciclagem), em Munich (Alemanha); organizador e coautor do livro “A Questão ambiental – Desenvolvimento e Sustentabilidade (Rio de Janeiro: Funenseg, 2004); autor de artigos, palestrante e mediador (congressos, debates, painéis) nas áreas de comunicação, seguro, meio ambiente, educação ambiental e sustentabilidade; coautor do projeto “Proposta de ações de educação ambiental para a Ilha Primeira, Barra da Tijuca – RJ” (Brasil, 2005); editor, videomaker e jurado de festivais de cinema ambiental.
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