COP21 Paris 2015: Economia limpa revolucionará sistema financeiro, diz ex-ministro francês

Os dizeres projetados na Torre Eiffel refletem o pensamento de ativistas e empresas na conferência – PATRICK KOVARIK / AFP

Um terço das duas mil maiores companhias do mundo se comprometeram com ações

Por Vivian Oswald, O Globo

LE BOURGET, França, 14/12/2015 — A ciência pode não ter convencido todos os países do mundo a atuar com o mesmo empenho no combate ao aquecimento global, mas a matemática apresentada até agora por seus especialistas sobre as consequências que o aumento da temperatura do planeta — em 2 graus Celsius ou 1,5 grau Celsius — e onde devem se concentrar os investimentos até o ano 2100 foi o suficiente para levar empresas e mercado financeiro a participarem em massa da Conferência do Clima, que terminou sábado, em Paris. Um terço das duas mil maiores companhias do mundo se comprometeram com ações globais. Juntas, elas valem o mesmo que a soma de todas as riquezas produzidas em um ano por China, Alemanha e Japão.

O setor privado já está totalmente convencido que o eixo da economia está prestes a mudar e que esta será a oportunidade de negócios do século. A tendência é que países e governos invistam cada vez mais nas energias limpas e menos nas poluentes. Só para financiar os planos de ação voluntários de redução das emissões anunciados por 187 países na COP-21 serão necessários pelo menos US$ 1,5 trilhão, muito mais do que os US$ 100 bilhões anuais que os países ricos mostraram disposição de aplicar em projetos dos emergentes.

Ex-ministro do Meio Ambiente da França, o especialista Pascal Canfin acaba de entregar um relatório encomendando pelo presidente François Hollande com as alternativas para o financiamento do clima. Ao GLOBO, ele afirma que o volume de dinheiro que a chamada economia limpa deverá mover daqui para frente pode causar uma verdadeira revolução no sistema financeiro internacional. E o sinal que o entendimento entre os 195 países reunidos na COP-21 emite para o setor privado é que o mundo vai mudar.

— Os mais espertos serão os que se mexerem primeiro. E isso terá um efeito de bola de neve — afirma ele.

Carbono com piso e teto
No documento “Mobilização de financiamento para o clima”, ele defende a precificação do carbono com piso e um teto, a regulamentação do sistema financeiro com regras claras para que os agentes possam operar no mercado de carbono com segurança e a importância dos bancos de desenvolvimento mundo afora como exemplos para as outras instituições financeiras como operadores neste novo mercado. Segundo ele, o choque climático pode ser tal que as empresas já começam a calcular os riscos para o futuro.

— Quando fui eurodeputado, entre 2010 e 2012, tentei levar este tema para o Parlamento Europeu e pregava sozinho no deserto. Hoje, as próprias empresas estão fazendo as contas. Há uma enorme mudança cultural — destaca Canfin.

O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Renovável, Adnan Amin, afirmou que um marco regulatório global e regras claras para que investimentos de porte sejam feitos da mesma maneira em grandes e pequenos por empresas transnacionais deve abrir as portas para trilhões de dólares em financiamento para novos projetos. Ele quer que os recursos que serão depositados no Fundo do Clima, criado pela Convenção-Quadro da ONU, sejam usados como garantias para os patrocinadores de novos projetos.

— Não quer dizer que o dinheiro vai ser usado. É só uma garantia, e pode impulsionar projetos que terão retornos milionários — afirmou.

Pelos cálculos da agência, os investimentos globais em energias renováveis somaram US$ 240 bilhões só no ano passado, ou 14% a mais do que em em 2013.

Novas demandas
De acordo com a Coalizão We Business, que representa milhares de empresas e investidores, ainda que nada mais fosse feito na Conferência do Clima, somente os planos de ação entregues pelos países, que cobrem 97% das emissões de gases estufa — que reduziram a previsão de aquecimento global de 4,8 graus Celsius para 2,7 graus Celsius — já seriam capazes de criar uma nova economia do clima com trilhões de dólares em investimentos em energia eficiente. O potencial é muito maior pela nova meta com a qual se comprometem os países para convergir até 1,5 graus Celsius.

Ao defender um sinal forte de acordo na COP-21 para os mercados, o secretário de Estado americano John Kerry afirmou que as decisões de investimentos seriam do setor privado.

— Esta será uma transformação orientada pelos negócios que vão surgir, combinados com a demanda do consumidor justo e ao fim da demanda do eleitor.

Com a adesão dos Estados Unidos e da China, o potencial de novos negócios torna-se ainda maior, na avaliação de especialistas. Esta é a primeira vez que os dois maiores países do mundo se comprometem com metas mais claras de redução de emissões. Até o Afeganistão e o Iraque, países em guerra há anos, que lutam contra o terrorismo e avanço do Estado Islâmico (EI), entregaram seus planos de metas. Apenas dez nações não o fizeram: Síria, Venezuela, Líbia, Nepal, Nicarágua, Timor, Coreia do Norte, St. Kittes e Nevis. A China, que durante muito tempo foi considerada um país difícil, tem se mostrado muito mais disposta ao diálogo. Os chineses também desencadearam um movimento paralelo de financiamento de ações climáticas e anunciaram US$ 3 bilhões para projetos feitos no âmbito da cooperação entre países em desenvolvimento. Ou seja, esses recursos, que nada têm a ver com o Fundo do Clima que foi discutido nas duas últimas semanas na cidade de Le Bourget, nos arredores de Paris, seriam um complemento.

Sobre Antonio Carlos Teixeira

Jornalista, pós-graduado em Ciências Ambientais (UFRJ); 20 anos de experiência na área de comunicação, jornalismo, edição de livros, revistas, sites, blogs e gestão de equipes; consultor/formador do primeiro Curso de Comunicação e Jornalismo Ambiental promovido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD, São Tomé e Príncipe, setembro 2014); integrante da Delegação Oficial da Câmara Brasil Alemanha para visita à IFAT Entsorga 2010 (Feira Internacional de Água, Esgoto, Lixo e Reciclagem), em Munich (Alemanha); organizador e coautor do livro “A Questão ambiental – Desenvolvimento e Sustentabilidade (Rio de Janeiro: Funenseg, 2004); autor de artigos, palestrante e mediador (congressos, debates, painéis) nas áreas de comunicação, seguro, meio ambiente, educação ambiental e sustentabilidade; coautor do projeto “Proposta de ações de educação ambiental para a Ilha Primeira, Barra da Tijuca – RJ” (Brasil, 2005); editor, videomaker e jurado de festivais de cinema ambiental.
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