COP21 Paris 2015 – Opinião – A Terra não para: clima e transição para uma economia de baixo carbono

A Terceira Pedra do Sol: a Terra, de acordo com a Hipótese Gaia, é um planeta vivo, que se autorregula e se auto-organiza, mantendo-se em equilíbrio para a continuidade das condições de manutenção de sua biodiversidade.

A Terceira Pedra do Sol: a Terra, de acordo com a Hipótese Gaia, é um planeta vivo, que se autorregula e se auto-organiza, mantendo-se em equilíbrio para a continuidade das condições de manutenção de sua biodiversidade.

 

Por Antonio Carlos Teixeira, editor do blog TerraGaia

A Terra não para. Único em todo o universo, nosso planeta move-se há mais de quatro bilhões de anos em atos contínuos de rotação e translação, isto é, em torno de si mesma e ao redor do sol. Joia do sistema estelar, a Terra, de acordo com a Hipótese Gaia, é um planeta vivo, que se autorregula e se auto-organiza, mantendo-se em equilíbrio para a continuidade das condições de manutenção de sua biodiversidade. As regiões do planeta que hoje são florestas, terras firmes, desertos, oceanos, ontem foram desertos, mares, florestas e terras firmes. Continentes se juntam e se separam, emergem e submergem; rios secam e se formam; espécies de fauna e de flora surgem e desaparecem. É muito provável que estas “configurações” assim permaneçam por mais alguns bilhões anos, antes de o planeta atingir o seu ocaso, perecendo e/ou se transformando, seguindo as leis cósmicas de nascimento, vida e morte. Mas, não necessariamente a raça humana tem a sua permanência garantida no planeta nos milhares de anos que se seguirão.

A Terra não é invenção do ser humano. Muito menos os seus recursos naturais, fauna e flora. Tudo já existia antes do nosso “aparecimento”. O que fazemos desde o início é criar tecnologias para melhorar as nossas próprias condições de vida. O perigo (para nós mesmos) é a insistência na utilização de soluções para o nosso bem-estar que estão afetando negativamente as dinâmicas ecossistêmica, ambiental e climática da Terra. Mas são exatamente essas dinâmicas que mantêm o equilíbrio para a manutenção da vida no planeta, como nós a conhecemos hoje, e que estão diretamente ligadas à sobrevivência do Sapiens.

Um destes alertas vermelhos estão acesos para as condições climáticas. O clima se altera em diversas partes do planeta, causando distúrbios e catástrofes que estão afetando diretamente as populações ao redor do mundo. Cientistas, pesquisadores, acadêmicos, governantes e representantes da sociedade civil discutem, debatem e se encontram para tentar saídas e soluções para a crise climática, que já está aí. Um destes encontros é Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC, da sigla em inglês), comumente conhecida como COP. A vigésima-primeira edição da conferência será realizada entre hoje (30 de novembro) e 11 de dezembro na cidade de Paris, capital da França. A julgar pelos resultados obtidos em Bonn (Alemanha), entre 19 e 23 de outubro, durante a última reunião preparatória para conferência, as expectativas para um acordo no mínimo razoável em Paris para conter o aumento de 2 graus na temperatura da Terra até o final do século não são lá muito animadoras. Tanto em Bonn quanto em outras rodas de conversas pré-COP21, percebe-se que os debates sobre os compromissos climáticos que os países devem estabelecer estão incluindo também discussões envolvendo a participação do capital financeiro internacional no processo. Mas por que o interesse dos bancos na contenção e na mitigação dos efeitos de alterações climáticas no planeta?

Os investimentos mundiais em energias renováveis chegaram a US$ 270 bilhões em 2014, um quarto do que o setor precisa investir, até 2030, para ajudar a evitar o aumento de 2 graus na temperatura da Terra até o final deste século. Sim: nós precisamos investir US$ 1 trilhão por ano em energias renováveis durante os próximos 15 anos se quisermos barrar o aquecimento global e mais US$ 2 trilhões em infraestrutura. Os governos centrais alegam não dispor de “orçamento” para realizar os investimentos necessários para mitigar efeitos de alterações climáticas, um assunto não muito prioritário se comparado com suas metas para geração de emprego e crescimento econômico. O equívoco é que estas metas estão assentadas justamente em modos de produção e consumo de alta emissão de carbono. E não haverá solução para a questão climática se não houver uma mudança na trajetória de crescimento dos países, sejam eles desenvolvidos ou em desenvolvimento.

O sistema financeiro internacional movimenta por ano cerca de US$ 300 trilhões. Apenas 1% deste valor já seria suficiente para fecharmos a conta do financiamento global dos projetos de mitigação das emissões de carbono. O que falta, então, para direcionar o fluxo de investimentos rumo a uma economia global de base energética renovável? Em duas palavras: ganhos e interesses.

O sistema financeiro não é movido por paixões, mas sim por interesses lucrativos. O que o capital internacional vai ganhar ao financiar projetos de mitigação climática? O tema tem sido amplamente debatido em eventos e discute-se, por exemplo, a criação de “bancos verdes”, “bônus verdes”, certificados, taxa de carbono ou até mesmo o estabelecimento de uma moeda de carbono para atribuir valor climático às ações de adaptação e mitigação. É preciso cautela para não associarmos a mitigação do carbono como um processo único e exclusivamente dependente do sistema financeiro. A transição se dará a partir de uma mudança de pensamento sobre como alcançar crescimento ou desenvolvimento por meio de uma economia global baseada em baixo carbono e energias renováveis.

Nossa responsabilidade é fazer a transição dos atuais modos de produção e consumo (altamente emissores de gases do efeito estufa – GEE) para uma economia mundial com desempenho de baixa emissão destes poluentes, principalmente de dióxido de carbono, o CO2, gás gerado pela queima de combustíveis de base fóssil.

Devemos também ampliar as nossas formas de comunicação com a sociedade sobre a questão da mitigação do carbono. O estímulo a projetos e programas que valorizem ações de comunicação voltadas para a prevenção e para o entendimento de que a questão da mudança climática deve ser vista como uma oportunidade para que todos os cidadãos compreendam a importância da transição dos atuais e insustentáveis modos de produção e consumo para uma economia global baseada em baixo carbono. Uma comunicação voltada para a conscientização da importância de promover ações de prevenção, que certamente farão com que a população aumente a sua percepção sobre o tema, e não fique à mercê de um discurso pedagógico que espalha equivocadamente o medo e a catástrofe.

A Terra não para. O tempo também não.

Sobre Antonio Carlos Teixeira

Jornalista, pós-graduado em Ciências Ambientais (UFRJ); 20 anos de experiência na área de comunicação, jornalismo, edição de livros, revistas, sites, blogs e gestão de equipes; consultor/formador do primeiro Curso de Comunicação e Jornalismo Ambiental promovido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD, São Tomé e Príncipe, setembro 2014); integrante da Delegação Oficial da Câmara Brasil Alemanha para visita à IFAT Entsorga 2010 (Feira Internacional de Água, Esgoto, Lixo e Reciclagem), em Munich (Alemanha); organizador e coautor do livro “A Questão ambiental – Desenvolvimento e Sustentabilidade (Rio de Janeiro: Funenseg, 2004); autor de artigos, palestrante e mediador (congressos, debates, painéis) nas áreas de comunicação, seguro, meio ambiente, educação ambiental e sustentabilidade; coautor do projeto “Proposta de ações de educação ambiental para a Ilha Primeira, Barra da Tijuca – RJ” (Brasil, 2005); editor, videomaker e jurado de festivais de cinema ambiental.
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