Qual jornalismo ambiental?

O distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), destruído pela lama das duas barragens da Samarco que se romperam no dia 5 de novembro de 2015. Foto: Antonio Cruz / Agência Brasil

O distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), destruído pela lama das duas barragens da Samarco que se romperam no dia 5 de novembro de 2015. Foto: Antonio Cruz / Agência Brasil

 

Jornalista uruguaio analisa a cobertura da imprensa brasileira sobre o crime ambiental cometido pela Vale e BHP Billiton (Samarco) em Mariana (MG). Ele defende o  “periodismo descalzo” – jornalismo de pés descalços – como alternativa ao jornalismo corporativo

Por Victor Bacchetta

Os comentários sobre a catástrofe de Mariana e a atitude da imprensa e das autoridades públicas diante desta tragédia humana e ambiental me levam a propor, mais uma vez, a necessidade de discutir a situação política e social que estamos enfrentando e o papel do jornalismo ambiental.

1. Contrariando as advertências sobre a crise ambiental do planeta e as recomendações aprovadas na Cúpula da Terra  – Eco 92 -, a evolução da economia mundial, dominada por algumas dezenas de corporações transnacionais e pelo capital financeiro internacional, se tornou a maior ameaça para a sobrevivência da humanidade.

2. Nos últimos 20 anos, os governos – incluindo as grandes potências – e as organizações da comunidade internacional (ONU, Banco Mundial, etc.), ao invés de se fortalecerem para implementar as políticas necessárias a fim de reverter a crise ambiental, acabaram se debilitando a tal ponto que quem define a agenda política são os grupos econômicos dominantes.

3. Os projetos de exploração de recursos naturais são implementados em uma escala crescente, com impactos ambientais e sociais de grande magnitude. Os governos se comportam meramente como sócios dos grupos econômicos nacionais e internacionais,  enquanto as comunidades e as populações afetadas ficam totalmente desprotegidas.

4. A imprensa tradicional também atua como sócia dos grandes grupos econômicos e não cumpre com sua função social de informar a população com verdade e independência. Nestes veículos da mídia é cada vez menor o espaço para um jornalismo independente e, principalmente, para um jornalismo ambiental sério.

5. As novas tecnologias da informação e da comunicação têm promovido até certo ponto o desenvolvimento de um jornalismo alternativo através da Web (blogs, redes sociais, etc.), mas, especialmente por problemas financeiros, não conseguem competir com os grande meios de comunicação tradicionais e, pelas razões já expostas anteriormente, os governos não lhes dão apoio suficiente.

6. O problema não é a falta de conhecimento e de análise sobre o que está acontecendo, mas sim a falta de influência nas políticas públicas. Se o jornalismo ambiental só pretender analisar os processos,  se tornará –  parafraseando García Márquez – a “Crônica de uma Morte Anunciada”. Porque o processo atual não tende a melhorar e cada vez está pior.

7. Como influenciar políticas públicas sem criar um novo partido político? Fazendo jornalismo ao lado dos movimentos sociais e contribuindo para uma cidadania informada e consciente capaz de mobilizar-se e de impor outras regras a governos e empresas. Isto é o que chamamos de “jornalismo descalço”.

8. A única maneira de reverter o processo de deterioração ambiental em curso é fortalecer a sociedade civil, para que os cidadãos exijam um comportamento diferente de políticos e empresários. Para isto as populações precisam estar informadas, poder analisar os problemas e propor soluções.
O jornalismo ambiental adquire assim um novo significado.

 

Victor Bacchetta é jornalista e membro-fundador da Red de Comunicación Ambiental de América Latina y El Caribe (RedCalc)

Tradução: Vera Mari Damian
Infinitacom@terra.com.br

Sobre Antonio Carlos Teixeira

Jornalista, pós-graduado em Ciências Ambientais (UFRJ); 20 anos de experiência na área de comunicação, jornalismo, edição de livros, revistas, sites, blogs e gestão de equipes; consultor/formador do primeiro Curso de Comunicação e Jornalismo Ambiental promovido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD, São Tomé e Príncipe, setembro 2014); integrante da Delegação Oficial da Câmara Brasil Alemanha para visita à IFAT Entsorga 2010 (Feira Internacional de Água, Esgoto, Lixo e Reciclagem), em Munich (Alemanha); organizador e coautor do livro “A Questão ambiental – Desenvolvimento e Sustentabilidade (Rio de Janeiro: Funenseg, 2004); autor de artigos, palestrante e mediador (congressos, debates, painéis) nas áreas de comunicação, seguro, meio ambiente, educação ambiental e sustentabilidade; coautor do projeto “Proposta de ações de educação ambiental para a Ilha Primeira, Barra da Tijuca – RJ” (Brasil, 2005); editor, videomaker e jurado de festivais de cinema ambiental.
Esse post foi publicado em Comunidades, Consciência ambiental, Empresas, Impactos ambientais, Jornalismo Ambiental, Recuperação de áreas degradadas, Riscos, Riscos de desastres, Saúde e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para Qual jornalismo ambiental?

  1. movimentoAMA disse:

    Só vi agora, seu post, amigo! Obrigada! É bem longa! Obrigada pelo apoio, de sempre!

  2. movimentoAMA disse:

    Discuto essa pauta, muito bem ai fundamentada, em campo minado de perigo, no trabalho de pesquisa ” Proativismo jornalístico Socioambiental x Discurso Marketeiro Insustentável ( Greenwashing). Bom demais ter parceiros assim para os desafios em xeque, nessa crise civilizatória.

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