A tragédia ambiental em Mariana, Minas Gerais: e a prevenção?

Área afetada pelo rompimento de barragem no distrito de Bento Rodrigues, zona rural de Mariana, em Minas Gerais (Antonio Cruz/Agência Brasil)

Área afetada pelo rompimento de barragem no distrito de Bento Rodrigues, zona rural de Mariana, em Minas Gerais (Antonio Cruz/Agência Brasil)

 

Por Antonio Carlos Teixeira, editor do blog TerraGaia

Ainda não sabemos a extensão total desta catástrofe, mas já podemos visualizar o brutal impacto que os 62 milhões de metros cúbicos de detritos/lama/material tóxico derramados no meio ambiente após rompimento de duas barragens da mineradora Samarco (joint venture da Vale com a australiana BHP Billiton) provocarão na vida de cidadãos mineiros e capixabas, nos ecossistemas, na flora, na fauna, na biodiversidade da Floresta Atlântica local, no Rio Doce, no sistema de abastecimento de água…

Esta tragédia me fez lembrar do estrago causado pelo cargueiro Exxon Valdez, que em março de 1989 derramou 40 milhões de litros de petróleo no Estreito Prince William, na costa do Alasca e exterminou nada menos que 250 mil pássaros, 2.800 lontras, 250 águias, 22 orcas e bilhões de ovas de salmão. Até hoje, 26 anos depois, a região não se recuperou da (desculpe o termo) porrada que tomou.

 
É melhor a gente começar a dizer não! Não para esta hipocrisia; não para essa roubalheira; não para esse cinismo; não para essas desculpas vazias e debochadas; não para uma sociedade que só quer saber de remediar e não de prevenir.

Não falo de governo, nem de partido, nem de nomes. Mas de cidadania. Independente de qualquer visão político-ideológica todos nós temos que ter um compromisso com o país, com os cidadãos e com a natureza. Esta tragédia diz respeito a todos nós e cobra brutalmente a nossa escolha pela remediação e pelos discursos vazios, debochados e arrogantes. Precisamos valorizar aspectos e ações de prevenção. Precisa estar acima de qualquer fundamento, seja ele político, partidário, religioso, regional, pessoal.

A prevenção sempre será a melhor solução; nunca a remediação.

Sobre Antonio Carlos Teixeira

Jornalista, pós-graduado em Ciências Ambientais (UFRJ); 20 anos de experiência na área de comunicação, jornalismo, edição de livros, revistas, sites, blogs e gestão de equipes; consultor/formador do primeiro Curso de Comunicação e Jornalismo Ambiental promovido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD, São Tomé e Príncipe, setembro 2014); integrante da Delegação Oficial da Câmara Brasil Alemanha para visita à IFAT Entsorga 2010 (Feira Internacional de Água, Esgoto, Lixo e Reciclagem), em Munich (Alemanha); organizador e coautor do livro “A Questão ambiental – Desenvolvimento e Sustentabilidade (Rio de Janeiro: Funenseg, 2004); autor de artigos, palestrante e mediador (congressos, debates, painéis) nas áreas de comunicação, seguro, meio ambiente, educação ambiental e sustentabilidade; coautor do projeto “Proposta de ações de educação ambiental para a Ilha Primeira, Barra da Tijuca – RJ” (Brasil, 2005); editor, videomaker e jurado de festivais de cinema ambiental.
Esse post foi publicado em Biodiversidade, Comunidades, Consciência ambiental, Descarte de resíduos, Empresas, Impactos ambientais, Jornalismo Ambiental, Poluição, Recursos naturais, Rios, Riscos, Riscos de desastres, Saúde e marcado , , . Guardar link permanente.

7 respostas para A tragédia ambiental em Mariana, Minas Gerais: e a prevenção?

  1. ELIANE FUKUNAGA disse:

    Já auditei outra mineradora e sei de outras empresas que na verdade usam a barragem como solução para a não destinação de resíduos. Barragem não é destinação de resíduo, ou não deveria ser. Não vejo relatórios e laudos técnicos do monitoramento periódico das condições de barragens serem emitidos aos órgão ambientais e quando pedi para ver se havia uma ação de prevenção, a resposta foi simples: a lei não obriga a ter esse tipo de laudo.
    Não vejo por parte das mineradoras, nenhuma preocupação com aproveitamento desse material, ou de recuperação da agua para reingresso no processo.
    Mineração deveria pagar royalties, sim. Uso indiscriminado de agua do subsolo, empobrecimento do solo, danos ambientais irreversíveis. Esse royalties deveriam ser diretamente direcionados a benfeitorias nas cidades do entorno e em um fundo para desastres. Uma vergonha empresas como essas simplesmente compensarem algo que quase afirmo poderia, sim, ter sido evitado.

    • Muito bom o seu comentário, Eliane. Gostaria de publicá-lo no blog como uma análise sobre a importância da prevenção para minimizar ou evitar acontecimentos como o de Mariana. Creio que seria muito importante chamar a atenção para a resposta que você ouviu e o que nós precisamos discutir quando nos referimos a prevenção, lei e “obrigação”.

      • ELIANE FUKUNAGA disse:

        Pode publicar, pois essa é a visão de muitas empresas lamentavelmente.

  2. Iara Dreger disse:

    “Não falo de governo, nem de partido, nem de nomes. Mas de cidadania. Independente de qualquer visão político-ideológica todos nós temos que ter um compromisso com o país, com os cidadãos e com a natureza…” Não acho que esta responsabilidade deva ser passada ao cidadão. Os governos municipal, estadual e federal, através de seus órgãos de controle e fiscalização ambiental, têm sim, a responsabilidade por este gravíssimo acidente ambiental, incluso o consórcio de empresas a quem pertence a mineradora. No meu entendimento, todo o alto escalão desses órgão ambientais deveriam, por uma questão de ética, pedir demissão de seus cargos. Como não foi o caso, deveriam ser demitidos, para que fique claro, à sociedade e à governaça, que esses atores têm, sim, responsabilidades políticas, sociais e ambientais perante o ocorrido e, nesse caso, negligenciadas. Considero desrespeitoso e vergonhoso o fato da Presidente do IBAMA marchar pelo países e pelos meios de comunicação, espalhando pelos 4 cantos do mundo os milhões que Vale o prejuíso do acidente: dinheiro não dá para plantar, nem para comer, nem para beber, nem recupera vidas. Nem todo o dinheiro do consórcio dessas empresas, responsáveis pelo dano, seria capaz de pagar o prejuízo. Que sejam responsabilizadas todas as estâncias envolvidas, para um pequeno conforto à nossa cidadania.

    • “Não acho que esta responsabilidade deva ser passada ao cidadão. Os governos municipal, estadual e federal, através de seus órgãos de controle e fiscalização ambiental, têm sim, a responsabilidade por este gravíssimo acidente ambiental, incluso o consórcio de empresas a quem pertence a mineradora.” Todos nós somo cidadãos, assumindo, ou não, cargos públicos ou privados. Por esta razão: “Não falo de governo, nem de partido, nem de nomes. Mas de cidadania. Independente de qualquer visão político-ideológica todos nós temos que ter um compromisso com o país, com os cidadãos e com a natureza.”

  3. Antonio Fernando Navarro disse:

    Antonio Carlos, como escrito, e muito bem aplicado, “a porrada” doi mais porque a uma confortável leniência que a tudo permite, em troca de “empregabilidade” e pagamento de impostos. Traçando um paralelo, o Governo Federal beneficiou fortemente as montadoras de veículos deixando de arrecadar impostos. Foram as primeiras a mandar embora trabalhadores e suspenderem a montagem de veículos. Impressionante passa a ser um Orgão de fiscalização ambiental que não sabe o que contêm os detritos e efluentes de processo, e sequer quantifica o risco à fauna e flora. Ontem a noite, no programa da Miriam Leitão na Globo News a presidente do IBAMA, quando informou o valor da multa de 250 milhões e foi questionada pela repórter se o valor da multa seria utilizado na recuperação da área, “escorregou feito um bagre dentro do rio” e chegou a dizer que o dinheiro iria ser utilizado nos estudos e análises para a prevenção de novos acidentes. E assim é que a banda toca,….

    • Como pode, meu caro Antonio Navarro, uma empresa de mineração responsável por pelo menos duas grandes barragens com detritos/lama/material tóxico e próximo, muito próximo de comunidades, deixar essa tragédia acontecer? Como não tinham aviso sonoro? Como não cuidaram da prevenção? Como essa empresa mineradora (seja ela Samarco, Vale ou BHP Billiton) tinha licença para funcionar sem ter aviso sonoro pelo menos? Veja o brutal impacto que essa tragédia (anunciada?) provocou nas comunidades (Bento Rodrigues foi varrida do mapa!), no dia a dia dos ribeirinhos do Rio Doce (este está envenenado, poluído e assoreado), na flora, na fauna, nos ecossistemas! Lamentável! Quem é que vai pagar por isso? Quem?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s