Se meu Fusca fraudasse…

Por PH de Noronha, Especial para Plurale (*)

O caso da fraude do motor a diesel da Volkswagen é forte candidato a tornar-se símbolo máximo da mais descarada desonestidade de uma grande corporação industrial jamais descoberta pela sociedade. “Nunca antes na história do mundo corporativo…”

 

A Volkswagen é um gigante mundial de fabricação e desenvolvimento de veículos. Seus números são impressionantes.

Com 550 mil funcionários e 100 fábricas em 27 países, a Volks criou e fabricou dois dos carros mais populares de toda a história: o lendário Fusca, desenvolvido nos anos 30 pelos engenheiros de Hitler como o carro popular do alemão comum (e também um dos símbolos do estilo socialista-latino do ex-presidente do Uruguai José Pepe Mujica); e a simpática Kombi, que teve mais de 1,5 milhão de unidades fabricadas ao longo de seis décadas.

A Volks é detentora das marcas Audi, Seat, Škoda, Bentley, Bugatti, Lamborghini, Porsche, Ducati, Scania e MAN. E fabrica um pouco de tudo no segmento de máquinas: motores diesel de grandes aplicações marítimas e industriais; turbocompressores; turbomáquinas (vapor e turbinas a gás); compressores e reatores químicos: transmissões de veículos; unidades especiais de engrenagens para turbinas eólicas; guias e acoplamentos; sistemas de teste para o setor de mobilidade.

Como já foi razoavelmente noticiado no Brasil (e bem mais na imprensa internacional do que aqui), a fábrica alemã admitiu que criou – deliberadamente, não foi uma falha ou acidente industrial – um software clandestino para burlar a fiscalização de dezenas de países sobre o nível de emissão do motor a diesel modelo EA 189 common-rail. Esse motor ilegal continua rodando em mais de 11 milhões de carros de passeio das marcas Volks, Audi, Seat e Škoda, não se sabe ao certo em quantas nações, pois os veículos são vendidos em seu país de fabricação, mas também são exportados. Só nos Estados Unidos, a estimativa é de cerca de 600 mil veículos dos modelos Passat, Beetle, Audi A3 e Jetta. Um recall dessa magnitude mundial vai demorar meses para corrigir a fraude e a Volks já reservou US$ 7,2 bilhões para custear a tarefa.

A crise derrubou o presidente-executivo mundial da Volks, Martin Winterkorn (foto), que renunciou na última quarta-feira. E segundo o economista-chefe do grupo bancário holandês ING, Carsten Brzeski, ouvido pela agência britânica Reuters, “de repente, a Volkswagen tornou-se um risco para a economia alemã maior do que a crise da dívida grega”. Mais uma dor de cabeça para Frau Angela Merkel…

Mas o que está ruim pode ficar ainda pior. A imprensa europeia e norte-americana diz que há indícios de que outras grandes montadoras cometem fraudes similares há algum tempo. Sem contar que a própria Volks provavelmente tem outros softwares “espertinhos” nos demais motores das suas linhas de veículos. Das Deutsch Malandragem não teria sido a única no mundo.

Provavelmente você já leu todos os detalhes no noticiário, de como um instituto independente, ligado a uma ONG, provocou a descoberta da fraude pela autoridade ambiental dos Estados Unidos, a EPA. A grosso modo, é como se algum técnico de laboratório descobrisse, por acaso, que no 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil, na Copa de 2104, os craques alemães jogaram sob forte efeito de estimulantes proibidos…

Quem já trabalhou numa grande corporação, no entanto, deve estar se perguntando: como, em uma empresa global forte ­– com boa reputação, tradição e história, que tem sua imagem associada à alta qualidade e inovação de seus produtos – ocorreu a decisão de se cometer um crime e desrespeitar a legislação de vários países, com as conhecidas consequências ambientais? Legislação essa que visa a evitar não apenas a deterioração das condições ambientais do mundo em que vivemos (através do controle da emissão de gases), como também prevenir problemas na saúde humana dos moradores das cidades.

Sobre essas “consequências ambientais”, me vem imediatamente à cabeça a imagem, ainda comum nas ruas e estradas do Brasil, daqueles ônibus ou caminhões velhos “queimando óleo”, jogando fumaça preta e empesteando o ar à vista de todos. Agora, imagine 11 milhões de carros Volkswagen novos e potentes, com motores 2.0, fazendo a mesma coisa – só que soltando uma fumaça invísivel, que ninguém vê… E isso vem acontecendo pelo menos desde 2009 (!).

Um dos modelos que usavam o motor EA 189 foi o Jetta Sedan, que ganhou em 2009 o título de “Carro verde do ano”, do “Green Car Journal”, publicação trimestral norte-americana sobre veículos “verdes” e ambientalmente amigáveis. Esse “Green Car Journal” sabia de nada, inocente…

A motivação dessa decisão desastrosa da Volkswagen é óbvia: fazer a empresa lucrar mais, através de um drible tecnológico na legislação. Como? Graças à fraude, o EA189 tornou-se mais potente do que os motores dos concorrentes que cumpriam a legislação. O que contribuía também para reforçar uma reputação de inovação tecnológica, de competência da Volks no projeto de seus produtos, vendidos como tecnologia de qualidade que respeita o meio ambiente e atende aos requisitos da legislação ambiental. Além disso, a fraude deve ter reduzido o custo de fabricação do motor, outro diferencial competitivo.

Coincidência ou não, no ano passado o grupo Volkswagen conseguiu um lucro espetacular em meio à crise econômica – que assolava particularmente a Europa, maior mercado da empresa. Em 2014, a Volks vendeu 10,2 milhões de veículos em todo o mundo (uma incrível média de 11,6 mil veículos vendidos por hora!), 5% a mais do que em 2013 e superando a líder Toyota para tornar-se a número 1 no ranking mundial. Conseguiu aumentar seu lucro antes dos impostos em 19%, para US$ 15 bilhões, e elevou sua margem de lucro operacional de 5,9% (2103) para 7,3%.

O quanto essa fraude contribuiu para esse crescimento nas vendas? Acho que nunca saberemos, é muito difícil, quase impossível de se mensurar…

Mas quem deu a ordem? Quem autorizou o crime? E aonde o sistema de governança corporativa falhou? Por que não impediu que isso acontecesse? Os acionistas devem estar se perguntando isso, caçando culpados, pois as ações da Volks despencaram de € 169,50 para € 111,80 em cinco dias – uma queda de 34%!

Nas grandes corporações modernas, os altos executivos e também os empregados de todos os escalões são movidos não a diesel, mas a bônus corporativos. Quanto maior o lucro, e quanto mais as metas (de vendas, produção, melhoria da qualidade, inovação etc.) forem atingidas, mais dinheiro entrará na conta do empregado a cada ano. Mas quanto maior o cargo na empresa, maior o volume de dinheiro a entrar – chegando a cifras de milhões no caso dos altos executivos.

Ou seja, o estímulo para os executivos dos primeiros escalões é bem maior. Essa é a cultura de uma corporação capitalista moderna.

E quem conhece uma corporação típica sabe muito bem que uma decisão que altera um produto que roda em 11 milhões de veículos de vários países não é fruto da esperteza única de um operário do chão de fábrica, de um engenheiro ou mesmo de um gerente. Envolve técnicos de informática que desenvolveram o software da malandragem germânica; os chefes desses técnicos; um ou mais engenheiros responsáveis pelo projeto do motor; o gestor desses engenheiros; o diretor acima deles todos.

Foi um trabalho de equipe. E teve alguém que autorizou, que bancou a ilegalidade. O presidente da Volks pode até não ter tido conhecimento do que estava sendo feito sob suas barbas – é pouco provável, mas é possível. De um jeito ou de outro, ele tem responsabilidade. Algum diretor abaixo dele, que ele colocou no cargo, fez ou deixou alguém fazer a besteira. E certamente ele também foi beneficiado, pois seu bônus anual (o maior da empresa) cresceu por conta dessa safadeza tecnológica. Há uma série de criminosos nessa empresa e os Estados Unidos já abriram processo criminal, além das multas ambientais, estimadas em US$ 18 bilhões, mais US$ 37 mil por veículo.

E a governança corporativa? Bom, as equipes e os procedimentos de governança normalmente são muito focados em, por um lado, prevenir e evitar descumprimento de leis e/ou de princípios éticos do negócio e da sociedade, mas por outro lado também têm a função de criar controles e procedimentos que permitam à corporação se proteger contra fraudes ou erros de funcionários que causem prejuízos a seu patrimônio. Especialmente fraudes e erros nas contas e contratos financeiros, nas despesas comuns, nas compras de produtos e serviços.

A governança corporativa focada nos processos industriais para prevenir a empresa de cometer deliberadamente um crime com armas tecnológicas, que pode ter sido fruto de uma decisão vinda do alto comando, é uma coisa bem mais rara de se encontrar. Até porque, ao se montar a estrutura de governança, não se parte do princípio de que o presidente ou um diretor de vendas ou de tecnologia seja um potencial criminoso.

A partir de agora, provavelmente os acionistas vão exigir mecanismos de governança também sobre o desenvolvimento de projetos e eventuais atos secretos e ilegais da alta direção corporativa. Uma nova revolução nas metodologias e no escopo da governança corporativa pode estar a caminho, talvez como único fruto saudável desse crime industrial.

Por pelo menos seis anos, a Volkswagen vem ajudando a piorar o aquecimento global e as condições climáticas do planeta, com 11 milhões de carros soltando fumaça poluente ilegal todos os dias. Agora, colocou em risco a saúde da economia de seu país de origem, a Alemanha. E, com a queda abrupta do valor de suas ações e a iminente debacle nas vendas de seus carros (especialmente nos Estados Unidos), somadas aos prejuízos que terá que arcar com multas, processos judiciais e despesas de recall e de readequação de todas as suas linhas de montagem, a corda deverá arrebentar do lado mais fraco e algumas dezenas de milhares de seu mais de meio milhão de empregados em todo o mundo irão engrossar as estatísticas do desemprego.

Um ou mais executivos da Volks deverão acabar na cadeia por alguns anos. Mas o prejuízo que a corporação trouxe para a economia mundial e para o nosso meio ambiente jamais serão ressarcidos. E se outras montadoras foram realmente envolvidas, em virtude da descoberta de novas fraudes, o setor se verá num turbilhão muito parecido com o que estão vivendo nossas empreiteiras corruptas.

Aliás, o nome da operação da nossa Polícia Federal se aplicaria muito bem à Volks e suas eventuais companheiras de ilícito: não vai faltar carro para entrar nesse novo Lava Jato global.

(*) Jornalista e profissional de Comunicação, com passagem pelas redações de O Globo, Jornal do Brasil e Brasil Econômico e mais de 20 anos de atuação na Comunicação Institucional de empresas nacionais e multinacionais, agências de comunicação e dos governos federal (Anac) e estadual (Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro

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Sobre Antonio Carlos Teixeira

Gestor de Comunicação para Sustentabilidade, Assessor Corporativo de Transição para uma Sociedade de Baixo Carbono, editor do blog TerraGaia. //// Communication Manager for Sustainability, Corporate Advisor for Transition to a Low Carbon Society, TerraGaia blog editor.
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Uma resposta para Se meu Fusca fraudasse…

  1. Guilherme Pinto disse:

    Sem desculpar ou diminuir a responsabilidade dos envolvidos, pelo menos nestes casos corporativos, não é possivel à direção alegar que não sabia de nada e sair ileso e com o seu cargo.

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