Série Especial “São Tomé e Príncipe”: comunidade do Plano de Água-Izé ameaçada de isolamento

Em Água-Izé, o solo esfarela, as árvores se contorcem e o mar avança: erosão costeira castiga e ameaça comunidade ancestral. Foto: Antonio Carlos Teixeira 2014 – www.terragaia.wordpress.com

Em Água-Izé, o solo esfarela, as árvores se contorcem e o mar avança: erosão costeira castiga e ameaça comunidade ancestral. Foto: Antonio Carlos Teixeira 2014 – http://www.terragaia.wordpress.com

Por Fredibel Umbelina e Suzinai Coelho*

CIDADE DE SÃO TOMÉ, São Tomé e Príncipe – A erosão costeira que avança na zona conhecida como “Boca do Inferno” e a subida do nível do mar no litoral próximo da comunidade localizada do Plano de Água-Izé (sul da ilha de São Tomé) poderão provocar o isolamento da região e formar um ilhéu. Os moradores estão preocupados, inseguros e com medo da situação se agravar ainda mais, pois o mar já avançou pelo menos cerca de 500 metros terra adentro.

O morador Ney Santiago, de 36 anos, nascido e criado na localidade, quando interpelado por um grupo de jornalistas ambientais não hesitou em desabafar sobre a situação actual que se vive na comunidade. “As pessoas estão com muito medo, pois existe o risco de ficarmos isolados e ninguém nunca veio aqui explicar o que está acontecendo”.

Nei Santiago e a ponte caída: "a gente está com muito medo do mar entrar na nossa comunidade." Foto: Antonio Carlos Teixeira 2014 - www.terragaia.wordpress.com

Nei Santiago e a ponte caída: “a gente está com muito medo do mar entrar na nossa comunidade.” Foto: Antonio Carlos Teixeira 2014 – http://www.terragaia.wordpress.com

Quando perguntado se gostaria de se mudar para outra região por causa dos riscos os quais a comunidade está exposta ele mostrou-se temeroso e inseguro quanto a essa possibilidade. “Sair daqui? Mas ir para onde?” Santiago denunciou também que a área está sendo degradada pela extração de areia do litoral próximo da comunidade, o que agrava ainda mais o impacto ambiental na região. “A gente está com muito medo do mar entrar aqui”, disse.

Vitaliana, uma senhora de 62 anos e mãe de 10 filhos, vive na comunidade desde os 16 anos. Ela confessou-nos que no ano passado viveram uma situação de muito pânico: “o mar gigante veio e nós ficamos com muito medo”, declarou. Segundo Vitaliana, existe um clima de insegurança na comunidade. “Não me sinto mais segura aqui como me sentia antes.” Segundo relatos dos moradores, ainda não houve vítima humana fatal, mas alguns animais já morreram por causa das ondas gigantes.

Dona Vitaliana, 62 anos, mora há 46 anos no Plano Água-Izé: "não me sinto mais segura aqui." Foto: Antonio Carlos Teixeira 2014 - www.terragaia.wordpress.com

Dona Vitaliana, 62 anos, mora há 46 anos no Plano Água-Izé: “não me sinto mais segura aqui.” Foto: Antonio Carlos Teixeira 2014 – http://www.terragaia.wordpress.com

Para agravar ainda mais a situação, a insegurança e os riscos dos moradores, a ponte que facilitava o acesso rápido para Água-Izé caiu por falta de manutenção. “Essa ponte faz muita falta, porque agora as crianças tem que dar uma volta muito grande para ir à escola e à cidade”, disse Vitaliana. A erosão da costa na localidade é tão intensa que uma estrada que havia na região até os anos 80 se transformou num estreito caminho no meio do mato.

Já o senhor Veloso, de 66 anos, pai de 12 filhos, que vive na comunidade há 58 anos, acredita que a situação que está acontecendo na região é obra divina. “Isso é a natureza do tempo mandado por Deus”, filosofa. Cauteloso, ele preferiu não opinar sobre a possibilidade das águas do oceano Atlântico invadirem e tomarem para si as terras ancestrais de sua comunidade, muito menos se essa situação poderá acontecer num futuro próximo. “Só Deus é quem sabe”, acredita.

Cava gerada por extração de areia: atividade potencializa e facilita inundação oceânica na reigão. Foto: Antonio Carlos Teixeira 2014 - www.terragaia.wordpress.com

Cava gerada por extração de areia: atividade potencializa e facilita inundação oceânica na reigão. Foto: Antonio Carlos Teixeira 2014 – http://www.terragaia.wordpress.com

Perguntada se tivesse a oportunidade de falar com primeiro-ministro de São Tomé e Príncipe (Gabriel Costa) sobre a dramática situação da comunidade, a senhora Vitaliana expressou, talvez, o jeito simples da vida que levam os moradores do Plano de Água-Izé. “Iria pedir apenas para ele dar mais condições para a gente viver melhor.”

*Reportagem realizada por integrantes do curso de Comunicação e Jornalismo Ambiental promovido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em associação ao projeto Sistema de Alerta Precoce do governo de São Tomé e Príncipe por meio do Ministério das Obras Públicas, Infraestruturas, Recursos Naturais e Meio Ambiente / Instituto Nacional de Meteorologia. (Setembro 2014)

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Sobre Antonio Carlos Teixeira

Gestor de Comunicação para Sustentabilidade, Assessor Corporativo de Transição para uma Sociedade de Baixo Carbono, editor do blog TerraGaia. //// Communication Manager for Sustainability, Corporate Advisor for Transition to a Low Carbon Society, TerraGaia blog editor.
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