Série Especial “São Tomé e Príncipe”: a agonia de Iô Grande: dias de um futuro esquecido

Por Alexandre Santos, Arcângelo Dênde, Artur Pinho, Francisco Lima, Lábica Lima e Nelson Lima*

CIDADE DE SÃO TOMÉ, São Tomé e Príncipe – Severamente exposta às consequências das mudanças climáticas, a comunidade de Iô Grande não difere muito da maioria das comunidades do país localizadas no litoral, isto é, muito próximas da orla marítima. Daí o grande risco que envolve os habitantes dessa região da ilha. O medo toma conta da população que vê as suas casas, de frágil construção e já bastante fustigadas pela natureza, com os dias contados.

Localizada no distrito de Caué, a pouco mais de 12 quilómetros da cidade de São João dos Angolares, no sul da ilha de São Tomé, Iô Grande é habitada por pouco mais de 250 pessoas e tem como principais meios de subsistência a pesca, a agricultura e a extracção do vinho da palmeira (bebida conhecida como vinho da palma).

O jovem Wander, de 22 anos, em conversa com a nossa equipa, deu a entender que o perigo anda à solta na comunidade, que está à mercê da fúria do mar. “Quando o mar está bravo ele chega perigosamente às nossas casas. As águas do oceano já atingiram a escola e as crianças tiveram que deixar as salas de aula”, afirmou o jovem, que não mediu palavras para nos confessar que areia e toneladas de britas estão sendo extraídas das praias pela empresa de construção “Monte Adriano” perante olhares impotentes da população da comunidade que, segundo ele, nada pode fazer para por cobro à situação.

“O mar já entrou mais de 50 metros terra adentro. Muitas casas já foram obrigadas a deslocar-se mais para o interior para evitar a entrada das águas”, disse Argentino Deolindo, que responsabilizou as autoridades da Câmara Distrital de Caué e o chefe de praia. “Eles têm conhecimento disso tudo, mas não ligam para a gente de Iô Grande. Até porque são eles mesmos que mandam tirar areia e brita aqui na praia. A gente está muito mal aqui”, denunciou.

Preocupados com o futuro comprometedor da comunidade, um grupo de jovens de Iô Grande decidiu sair em defesa do local através da criação de uma associação denominada “Amigos do Iô Grande”. Contribuir para a limpeza, para o saneamento do meio e impedir a extracção de inertes constituem os objectivos desta associação, segundo o seu presidente, Orlando Armando.

O cenário da comunidade de Iô Grande é preocupante e alerta para uma catástrofe não muito distante, caso não sejam tomadas medidas urgentes pelas autoridades competentes. “A Câmara de Caué nada vai fazer porque para ela a comunidade de Iô Grande não existe. Nós temos medo de tomar medidas porque depois podem vir represálias”, disse um dos jovens da associação, que preferiu não se identificar para a nossa reportagem.

A reportagem tentou em vão ouvir a opinião de autoridades da Câmara Distrital de Caué ou políticos eleitos pelos moradores locais, mas todos estavam ausentes ou se esquivaram das responsabilidades perante a nossa equipa. Contudo, pudemos depreender que a situação da comunidade é do conhecimento do poder local, que nada faz para melhorar a vida das pessoas.

A comunidade de Iô Grande aguarda pelas partidas da natureza numa altura em que os impactos negativos das mudanças climáticas no mundo estão no centro das atenções das elites mundiais.

*Reportagem realizada por integrantes do curso de Comunicação e Jornalismo Ambiental promovido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em associação ao projeto Sistema de Alerta Precoce do governo de São Tomé e Príncipe por meio do Ministério das Obras Públicas, Infraestruturas, Recursos Naturais e Meio Ambiente / Instituto Nacional de Meteorologia. (Setembro 2014)

Anúncios

Sobre Antonio Carlos Teixeira

Executivo de Comunicação I Assessor Estratégico I Sustentabilidade/Baixo Carbono I Editor I Editor do blog TerraGaia //// Executive of Communication I Strategic Advisor I Sustainability/Low Carbon I Editor I TerraGaia blog Editor.
Esse post foi publicado em Aquecimento global, Bioma Costeiro, Cambio climático, Climate Change, Comunidades, Environmental journalism, Human activities and climate change, Impactos ambientais, Jornalismo Ambiental, Jornalismo investigativo, Mares e oceanos, Mudança climática, São Tomé e Príncipe, Sistema Alerta Precoce STP e marcado , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s