Série Especial “São Tomé e Príncipe”: país dá os primeiros passos no tratamento de resíduos orgânicos

Por Arcângelo Dênde, Francisco Lima, Lábica Lima, Manuel Dênde e Waley Quaresma*

CIDADE DE SÃO TOMÉ, São Tomé e Príncipe – A Câmara Distrital de Água-Grande (CDAG) construiu, no quadro de um projecto com a União Europeia, na localidade de Correia, uma Estação de Tratamento de Reciclagem por Compostagem (ETRC), com objectivo de tratar os resíduos orgânicos recolhidos em mercados, supermercados, jardins públicos e privados e residências e criar um produto para ser utilizado na agricultura para melhorar as características físicas do solo.

Inaugurado a 13 de Março de 2013, e a funcionar de forma experimental numa área com cerca de 15 m2, a estação tem vindo a funcionar com um total de seis trabalhadores, sendo quatro em regime de contrato e dois a tempo inteiro.

A estação recolhe para tratamento, basicamente, todos os resíduos orgânicos de cores verde e castanho, incluindo frutas, legumes, ramos e troncos de árvores. A produção de fertilizantes a partir desses resíduos chega a 90 toneladas por ano.

No processo de compostagem, segundo explicaram o engenheiro químico Wildemark Trovoada, 31 anos, e a engenheira ambiental Djamila Santos, 29 anos, os resíduos orgânicos são normalmente recolhidos em contentores de 120 litros e depois depositados no ETRC. Após uma triagem, os resíduos são destinados a o que chamam de pilhas (espécies de canteiros agrícolas).

“O processo de decomposição demora em média três meses, mas há casos em que o prazo varia entre 1 e 2 meses. Tudo depende do clima e da variação da temperatura. Se demorar mais do que três meses é porque algo está mal e a pilha deve ser aberta”, explicou Trovoada, formado em Cuba.

De acordo ainda com o nosso interlocutor, “concluída esta fase, o composto é crivado, separado e depois ensacado e armazenado para comercialização a preço de 30 mil dobras por saco de 30 quilos” (cerca de 1,5 dólar).

De acordo com Djamila Santos, numa perspectiva de eficácia, o produto final – denominado “Férti Dóxi” – é enviado para um laboratório em Portugal a fim de ser aprovado e certificado.

Entretanto, um estudo de viabilidade aponta que a produção do “Férti Dóxi”, a médio prazo, poderá atingir cerca de 300 toneladas por ano. No quadro da política de descentralização, prevê-se que os outros distritos também venham a ser contemplados com a construção de ETRC.

O “Férti Dóxi”, segundo os entrevistados, é bastante procurado pelos agricultores inclusive alguns hóteis, para jardinagem “por ser um produto natural e puro”, explicou Trovoada.

Telmo Andrade, camponês de Correia, de 30 anos de idade, considera eficaz a aplicação do “Férti Dóxi” na sua parcela de terra, pelo facto do produto oferecer menos compactação, maior arejamento, maior união entre as partículas finas do solo. “Tudo que é orgânico é saudável”, defende ele.

Higiene, segurança e protecção no trabalho

No que se refere à higiene e segurança no trabalho – o que constitui, aliás, preocupação das autoridades, nomeadamente, do Ministério da Saúde e Assuntos Sociais -, a nossa reportagem constatou “in loco” que a Estação tem a situação controlada. Os trabalhos possuem alguns equipamentos de protecção, tais como botas, luvas, máscaras, óculos e fatos de protecção, pinças e outros utensílios que viabilizam a selecção dos diferentes produtos orgânicos dos não-orgânicos (pilhas industriais, tampas de cervejas, lâmpadas, plásticos e outros).

A segurança da Estação é assegurada por uma vigilante que, por sinal, é trabalhadora e vizinha da ETRC.

A estação faz a recolha dos resíduos orgânicos e “não constitui nenhum perigo para a saúde pública visto que não produz maus cheiros”, acrescentou Santos, situação também constatada pela nossa reportagem juntos aos moradores-vizinhos da ETRC.

A fase experimental desse projecto tem o seu término para Dezembro deste ano, altura em que a Câmara Distrital de Água-Grande prevê negociar uma terceira fase para assegurar a sustentabilidade do projecto.

A ETRC, recorde-se, insere-se no quadro do Projecto de Resíduos Sólidos e Urbanos financiado pela União Europeia em 2009 no valor de 700 mil euros, e conta nessa segunda fase com recursos de 600 mil euros.

*Reportagem realizada por integrantes do primeiro Curso de Comunicação e Jornalismo Ambiental promovido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em associação ao projeto Sistema de Alerta Precoce do governo de São Tomé e Príncipe por meio do Ministério das Obras Públicas, Infraestruturas, Recursos Naturais e Meio Ambiente / Instituto Nacional de Meteorologia. (Setembro 2014)

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Sobre Antonio Carlos Teixeira

Gestor de Comunicação para Sustentabilidade, Assessor Corporativo de Transição para uma Sociedade de Baixo Carbono, editor do blog TerraGaia. //// Communication Manager for Sustainability, Corporate Advisor for Transition to a Low Carbon Society, TerraGaia blog editor.
Esse post foi publicado em Cidades Sustentáveis, Consciência ambiental, Consumo, Descarte de resíduos, Desenvolvimento, Desenvolvimento sustentável, Educação ambiental, Empresas, Jornalismo Ambiental, Projetos ambientais, Reaproveitamento, Resíduos Sólidos Urbanos, São Tomé e Príncipe, Sistema Alerta Precoce STP e marcado , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

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