Série Especial “São Tomé e Príncipe”: as causas e as consequências da produção de carvão

Por Albertino Fernandes, Alexander Martins, Genisvaldo Nascimento, Jair Pimentel e Suzinai Coelho*

CIDADE DE SÃO TOMÉ, São Tomé e Príncipe – Em São Tomé e Príncipe, a falta de oportunidade de emprego faz com que muitos adultos, jovens e adolescentes recorram à prática de extração de carvão para sustento da família. Tal prática tem criado vários constrangimentos ao ambiente local, já bastante impactado por alterações climáticas que têm sido constatadas nos últimos anos no país. Neste sentido, um grupo de jornalistas ambientais foi ouvir os carvoeiros do distrito de Lobata (norte da ilha de São Tomé), onde a incidência da prática é maior.

A nossa equipa de reportagem falou com o Sr. Ermindo da Graça, de 64 anos, pai de cinco filhos, carvoeiro da localidade de praia das Conchas.

“Tenho cinco filhos, sou carvoeiro há cerca de 20 anos e não tenho outros meios de subsistência desde que fui licenciado na empresa ECOMI”, diz o Sr. da Graça.

“Aqui consigo produzir diariamente por volta 3 a 4 sacos de carvão, e vendo as palaiês no valor de 60 a 70 mil dobras (cerca de US$ 3) na época de gravana (período de seca). No período das chuvas consigo vender por 80 a 90 mil dobras (cerca de US$ 4), o que, na minha opinião, dá pra safar”, relatou o carvoeiro.

Questionado se tem noção dos danos e/ou efeitos que esta prática pode causar no meio ambiente, Ermindo da Graça mostrou-se consciente dos impactos negativos de tal acto para o microclima local.

“Sei que esta prática diminui a frequência da chuva, diminui a produção agrícola, e até mesmo prejudica a minha própria saúde, mas não há como sustentar a minha família de outra forma”, resignou-se.

Apesar de estar ciente do impacto negativo que as suas práticas causam no ecossistema de praia das Conchas, Ermindo da Graça mostrou-se bastante sensibilizado com as causas ambientais, tanto é que se dispôs a colaborar com a Direcção das Florestas na reflorestação do local.

Ainda no distrito de Lobata, encontramos um grupo de jovens envolvido na tal prática. Integrantes do grupo mostraram-se bastante preocupados com a situação e confirmaram à nossa reportagem a existência de cerca de 300 carvoeiros atuando na região.

Segundo eles, a prática começa a se tornar ainda mais preocupante pois está atraindo muitos adolescentes com idades entre 10 e 13 anos.

O envolvimento desses menores tem a ver com o abandono escolar derivado dos fracos recursos económicos de pais e/ou responsáveis pela educação desses jovens.

Contactado pela nossa reportagem o presidente da Câmara de Lobata, Demóstenes da Conceição, apresentou a seguinte solução:

“Já temos junto às câmaras a germinação de um projecto de produção e transformação de milho, que poderá empregar por volta de 60 jovens. Por outro lado, pretendemos junto ao governo central encontrar parceiros para financiamento de compra de equipamentos para construção de oficinas de marcenaria, carpintaria e mecânica, onde seguramente irão empregar muitos jovens e, consequentemente, dar-lhes melhores condições de vida.”

No caso dos adolescentes que se encontram nesta prática, Demóstenes da Conceição disse que “a autarquia local pretende alfabelizá-los e também auxiliar os pais desses jovens, considerando os seus fracos recursos económicos, pagando as propinas e as despesas com autocarro escolar.”

No quadro do projecto “Plantar São Tomé e Príncipe” – que propõe ações de reflorestamento como forma de combater impactos de alterações do clima no ambiente -, a Direcção das Florestas, por meio de nota de imprensa, afirmou que “a desflorestação pode extinguir os habitats e influencia a diminuição da precipitação que afecta gravemente a produção alimentar. Igualmente os fumos produzidos com as queimadas de carvão provoca a perfuração das camadas de ozono, o que faz com que os raios ultravioleta incidam directamente sobre a superfície terrestre, o que pode causar problemas de saúde”.

*Reportagem realizada por integrantes do primeiro Curso de Comunicação e Jornalismo Ambiental promovido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em associação ao projeto Sistema de Alerta Precoce do governo de São Tomé e Príncipe por meio do Ministério das Obras Públicas, Infraestruturas, Recursos Naturais e Meio Ambiente / Instituto Nacional de Meteorologia. (Setembro 2014)

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Sobre Antonio Carlos Teixeira

Gestor de Comunicação para Sustentabilidade, Assessor Corporativo de Transição para uma Sociedade de Baixo Carbono, editor do blog TerraGaia. //// Communication Manager for Sustainability, Corporate Advisor for Transition to a Low Carbon Society, TerraGaia blog editor.
Esse post foi publicado em Aquecimento global, Cambio climático, Clima, Climate Change, Comunidades, Consciência ambiental, Conservação, Desmatamento e degradação, Human activities and climate change, Impactos ambientais, Jornalismo Ambiental, Jornalismo investigativo, Mudança climática, Recuperação de áreas degradadas, Recursos naturais, Reflorestamento, Saúde, São Tomé e Príncipe, Sistema Alerta Precoce STP e marcado , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

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