Série Especial “São Tomé e Príncipe”: ondas gigantes devastaram comunidade Vila de Santa Catarina

Alice Pina no exato local onde era a sua casa. "Perdi tudo." Foto: Antonio Carlos Teixeira 2014 - www.terragaia.wordpress.com

Alice Pina no exato local onde era a sua casa. “Perdi tudo.” Foto: Antonio Carlos Teixeira 2014 – http://www.terragaia.wordpress.com

Por Abel Veiga, Adelzira Nascimento, Fredibel Umbelina, Lager Ramos, Manuel Barros e Nelson Diogo*

 

CIDADE DE SÃO TOMÉ, São Tomé e Príncipe – Cerca de quatro meses depois da catástrofe natural que abateu sobre a Vila de Santa Catarina, norte da lha de São Tomé, a população local continua sem conhecer as causas das ondas gigantes que destruíram pelo menos 14 residências, cerca de 300 toneladas de cacau, mais de 550 toneladas de café e cerca de 300 canoas de pesca artesanal.

Santa Catarina fica a 45 quilómetros ao norte da Cidade de São Tomé, a capital do arquipélago. Tem uma população estimada em cerca de 2.500 pessoas, 600 das quais foram directa ou indirectamente afetadas pelos prejuízos causados pela maré alta do passado dia 30 de maio. Tudo porque não existe no local uma estrutura de “Alerta Precoce” para prevenção contra inundações, o que poderia na altura ter ajudado a evitar tantos prejuízos.

Um grupo de jornalistas que participa de uma formação sobre jornalismo ambiental promovido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em São Tomé e Príncipe deslocou-se ao local e conversou com as populações.

Constatamos que as pessoas vivem inseguras e muitas já não querem viver em Santa Catarina com medo de que a maré alta volte mais uma vez a causar destruição, e desta vez com perdas de vidas humanas.

Os jornalistas ambientais do curso do PNUD em São Tomé e Príncipe entrevistam os moradores de Vila de Santa Catarina atingidos pela inundação oceânica.  Foto: Antonio Carlos Teixeira 2014 - www.terragaia.wordpress.com

Os jornalistas ambientais do curso do PNUD em São Tomé e Príncipe entrevistam os moradores de Vila de Santa Catarina atingidos pela inundação oceânica. Foto: Antonio Carlos Teixeira 2014 – http://www.terragaia.wordpress.com

“Depois do que aconteceu, algumas pessoas vieram aqui e disseram que a onda gigante foi provocada por um grande pedaço de gelo caiu no mar, fazendo com essa parte do nosso país inundasse”, relatou o morador Foster Fernandes, referindo-se ao degelo dos pólos da Terra e à queda de icebergs nos oceanos, fenómenos associados à mudança climática.

“Eu não quero viver mais aqui. Mesmo que me construam aqui uma casa em alvernaria, prefiro viver numa cabana no meio do mato, longe do mar”, disse-nos Maria Nascimento, uma das várias pessoas que perdeu tudo o que possuía com a fúria do mar.

A mesma coisa disse-nos Manuel Francisco, Paula José, Foster Fernandes, Alice Pina e Gaudencia Semoa, todos moradores locais e que amargaram enormes perdas materiais com a catástrofe ambiental que se abateu sobre a Vila de Santa Catarina.

“Perdi tudo o que havia na minha casa de sete cômodos”, relatou Alice Pina.

Pouco mais de três meses depois do incidente, as pessoas mais afetadas continuam a viver com imensas dficuldades.

O ponto zero do impacto: devastação foi tudo o que restou da comunidade de Vila de Santa Catarina, liquidada por uma inundação oceânica em São Tomé e Príncipe. Foto: Fredibel Umbelina

O ponto zero do impacto: devastação foi tudo o que restou da comunidade de Vila de Santa Catarina, liquidada por uma inundação oceânica em São Tomé e Príncipe. Foto: Fredibel Umbelina

“O senhor primeiro ministro veio aqui e deu 2 milhões e quinhentas mil dobras (cerca de 100 euros) a cada pessoa. Mas já se passaram quatro meses. Como é que vamos viver e nos alimentarmos com apenas dois milhões de dobras?” interrogam as vítimas, todos ao mesmo tempo, enquanto explicavam a situação.

A Câmara Distrital de Lembá – responsável pela administração da região – deu também um pequeno apoio financeiro, mas para um número restrito de pessoas, relataram os moradores.

“Eles (as autoridades de Câmara) disseram que não têm dinheiro e que é tarefa do governo central resolver o nosso problema”, explicou ainda Foster Fernandes. Segundo os moradores, alguns “cidadãos de boa vontade” também contribuiram com doações de roupas e utensílios para minimizar as carências das vítimas.

Poucos dias depois da catástrofe, o governo central de São Tomé e Príncipe deu início à construção de oito habitações para os residentes mais afetados, numa área situada a cerca de 200 metros do “ponto zero” da catástrofe, local que, curiosamente, pode vir a ser atingido por outras ondas gigantes e/ou inundações. Entretanto, 60% das obras ainda não haviam sido concluídas durante a visita da nossa reportagem.

As casas que estão sendo construídas a 200 metros do local da inundação: "vocês se sentirão seguros aqui?" - Foto: Antonio Carlos Teixeira 2014 - www.terragaia.wordpress.com

As casas que estão sendo construídas a 200 metros do local da inundação: “vocês se sentirão seguros aqui?” – Foto: Antonio Carlos Teixeira 2014 – http://www.terragaia.wordpress.com

“O governo disse-nos que não tem dinheiro e está a espera de recursos do Banco Mundial. Hoje estamos a viver mal e sem condições, amparados em casas de familiares e amigos”, explicou um desolado Foster Fernandes.

Perguntados se tinham certeza de que se sentiriam seguros no local onde estão sendo construídas as novas casas, os moradores de Vila de Santa Catarina ficaram confusos e não souberam responder…

 

*Reportagem realizada por integrantes do primeiro Curso de Comunicação e Jornalismo Ambiental promovido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em associação ao projeto Sistema de Alerta Precoce do governo de São Tomé e Príncipe por meio do Ministério das Obras Públicas, Infraestruturas, Recursos Naturais e Meio Ambiente / Instituto Nacional de Meteorologia. (Setembro 2014)

Anúncios

Sobre Antonio Carlos Teixeira

Executivo de Comunicação I Assessor Estratégico I Sustentabilidade/Baixo Carbono I Editor I Editor do blog TerraGaia //// Executive of Communication I Strategic Advisor I Sustainability/Low Carbon I Editor I TerraGaia blog Editor.
Esse post foi publicado em Aquecimento global, Cambio climático, Clima, Climate Change, Comunidades, Human activities and climate change, Impactos ambientais, Jornalismo Ambiental, Jornalismo investigativo, Mares e oceanos, Mudança climática, São Tomé e Príncipe, Sistema Alerta Precoce STP e marcado , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s