Rio+20: o legado (que ainda é) possível

Propostas para uma agenda de vanguarda, que amplie a contribuição do Brasil e eleve os níveis de ambição dos atuais debates após a Conferência Rio+20

 
Por Antonio Carlos Teixeira

A posição do Brasil pós-Rio+20
O Brasil deve continuar a incentivar esforços em prol da redução da miséria e pobreza extremas no planeta. A vanguarda nessa discussão precisa focar em ações práticas e teóricas e em investimentos que diminuam a pressão que situações de miséria provocam em iniciativas voltadas para o desenvolvimento sustentável, sendo capazes às vezes até de torná-las desacreditadas.

O legado positivo da Rio+20 para o país
Só o fato de a conferência ser “Rio+20” e não “Estocolmo+40”, por exemplo, já demonstra a importância do Brasil no contexto da discussão global dos temas meio ambiente e sustentabilidade. O país está no centro da discussão internacional sobre desenvolvimento e sustentabilidade. É um parceiro da maior envergadura para qualquer nação envolvida ou não diretamente nesse processo, e ganhou respeito e atenção dos países e organizações do mundo nos últimos 20 anos. Talvez um dos pontos cruciais para levar o país às transformações em direção à sustentabilidade seja autoestima. É preciso incutir autoestima em todos os brasileiros.

O compromisso com o desenvolvimento sustentável
Não voltaremos atrás: esse compromisso político é inviolável. Temos que crescer sob o equilíbrio da sustentabilidade. E isso pode ser feito. Só o fato de a conferência lembrar os 20 anos de realização da Rio (ECO) 92 já é um exemplo claro de que sustentabilidade passa também por relações multilaterais.

Rio92, Rio+10 e Rio+20: avanços e lacunas
A própria realização e a força da Rio+20 já demonstram esses avanços desde a reunião de Joanesburgo (2002, a Rio+10). Cada evento realizado é um avanço nas metas e objetivos relacionados à sustentabilidade mundial. Até porque há dez, vinte anos não se discutia sustentabilidade com a frequência atual. E se adicionarmos o advento da internet e das redes sociais podemos perceber o quanto galgamos em termos de conscientização socioambiental nas últimas duas décadas.

Como lacuna, vejo a questão do Fundo Mundial para o Clima. A efetiva criação desse expediente é um passo gigantesco na ampliação das nossas formas de mitigação e prevenção de eventos climáticos negativos e também uma forma de pressionar os países a serem mais rigorosos nas suas políticas industriais e de consumo.

Temas novos e emergentes que devem ser incluídos na nova agenda internacional do desenvolvimento sustentável e que contemplem, de forma equilibrada, as dimensões ambiental, social e econômica
Destaco três prioridades:
1 – a proliferação do chamado lixo eletrônico: em termos globais, a sociedade humana está produzindo nada menos que 50 milhões de toneladas de “e-lixo” anuais. Mas será que todos esses resíduos eletrônicos estão sendo gerados apenas pelo fato de que os aparelhos já esgotaram suas capacidades de utilização? É bem provável que não. Talvez os componentes principais que estejam motivando essa produção absurda de “e-resíduos” tenham mais a ver com educação, postura, impulso, consumismo, complexo de superioridade, de inferioridade, ansiedade, sensação de vazio…

2 – a responsabilidade do consumo consciente: existem saídas para minimizar ou reduzir esses impactos. Duas delas: exercer a “Política dos 5 Rs” e estimular na nossa sociedade que cada fabricante seja responsável pelo tratamento e destinação dos resíduos eletrônicos dos seus aparelhos. Nos 5 Rs, todas as ações dizem respeito à nossa postura enquanto cidadãos que defendem uma mudança de comportamento em defesa da preservação e da conservação do meio ambiente e dos recursos naturais: reduzir (consumo), reutilizar (utensílios, embalagens), reciclar (resíduos), recusar (o que não é necessário) e repensar (nossas atitudes). Ok, o apelo consumista contemporâneo é esmagador: somos levados a querer participar dos usos e frutos da sociedade, a ter os últimos lançamentos dos mais modernos aparelhos, a ostentar marcas internacionais, a provocar uma “invejinha” nos conhecidos… Mas, sinceramente, não dá para posar de ambientalista, de defensor da natureza, de preocupado com o aquecimento global se não exercemos os 5 Rs diariamente em nossas vidas. Ou pelo menos alguns deles;

3 – a importância da logística reversa dentro de uma política internacional de resíduos sólidos: não basta apenas nós, consumidores, reduzirmos o consumo. É urgente que governos, empresas, fábricas e indústrias também entrem nessa corrente. Para reduzir os impactos de lixo eletrônico e demais resíduos sólidos no meio ambiente global, os cidadãos precisam ser esclarecidos sobre as melhores formas de descarte dos seus aparelhos. E a principal delas, sem dúvida, e a de retorno ao fabricante. Indústrias e fabricantes são os agentes mais capacitados para realizar esse tipo de recolhimento. Têm know how para manuseio, pois conhecem seus componentes, sua composição (elementos químicos, metais preciosos, pesados…) e podem desmontar com mais propriedade aquilo que montaram. Podem chamar como quiser: logística reversa, política de envio de aparelho usado, programa de reenvio de material… O mais importante é esclarecer a população, o consumidor, o cidadão. É uma questão de respeito (a quem investe na marca) e de responsabilidade (social, corporativa e socioambiental).

Novos padrões de consumo e produção
Redução de lixo eletrônico e demais resíduos sólidos; conscientização socioambiental sobre a responsabilidade de se consumir bens exercendo uma postura equilibrada com os anseios do modo sustentável de vida planetário; e estimular e fiscalizar empresas, indústrias e montadoras a reutilizar e reciclar os resíduos de seus aparelhos gerados pelo uso da população.

Erradicação da pobreza
O caminho é o da inclusão de conceitos práticos e teóricos de educação e de conscientização socioambiental (ou simplesmente educação) em todos os níveis de ensino, seja ele público ou privado, em nível internacional. Em alguns momentos, não teremos como avançar na questão da sustentabilidade se não nos desfizermos de certos hábitos, costumes, padrões ou tradições. Talvez tenhamos que reaprender a nos alimentar, a consumir, a comprar, a utilizar… Estamos sendo chamados a nos responsabilizar pela vida das próximas gerações, preocupação que não existia entre os nossos antepassados.

Integração das agendas e atividades das instituições responsáveis pelos pilares econômico, social e ambiental do desenvolvimento sustentável, nas esferas internacional e nacional
O primeiro passo seria transformar o Conselho de Segurança da ONU em Conselho de Sustentabilidade. Não podemos mais falar em segurança sem levar em conta aspectos de sustentabilidade planetária e humana. Somente a mudança no nome já causaria um impacto positivo muito grande nas populações e governos dos países, principalmente os mais pobres, as nações em vias de desenvolvimento e as que estão na linha de frente dos impactos causados pelas mudanças no clima global. Um Conselho de Sustentabilidade, integrado por representantes de todas as regiões do planeta, seria um passo arrojado, mas, sem dúvida, fundamental para alcançarmos e mantermos o desenvolvimento tecnológico sem causar desequilíbrios nos sistemas naturais do planeta.

Coordenação de projetos de agências internacionais no País
Criação, manutenção e atualização de um banco de dados, contendo todas as ações e projetos dessas agências no país. Organizar, cadastrar e fiscalizar esses esforços vindos desses organismos, para que possamos identificar e direcionar ações, programas, projetos e investimentos de forma proativa e eficaz, e que produzam resultados positivos e agregadores ao desenvolvimento e à sustentabilidade do Brasil.

Fortalecimento da governança ambiental internacional
O fortalecimento virá se implementarmos ações como: valorizar os laços de amizade e confiança mútuas entre os governos e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA); fortalecer política e economicamente o Programa; incentivar a troca de experiências positivas e enriquecedoras entre os povos; e realizar intercâmbios de profissionais, para que sejam conhecidos e aplicados (dentro das condições de cada país) as ações ambientais e socioambientais que se mostraram capazes de transformar consciências e modelar novas atitudes em prol do meio ambiente, dos seres e da sustentabilidade do planeta.

Papel dos atores não-governamentais no sistema multilateral internacional
A importância desses atores é trazer para a ONU aquilo que, em alguns momentos, apenas eles conseguem “enxergar”. São agentes que precisam ter voz nas Nações Unidas para que a mudança possa ser vista por um novo ângulo, e não mais apenas sob os pontos de vista de mandatários e políticos. O comprometimento só é viabilizado se for concedido a esses atores não governamentais espaço para a colocação de ideias, pensamentos e sugestões.

Antonio Carlos Teixeira
Jornalista, pós-graduado em Ciências Ambientais, consultor de comunicação, meio ambiente e sustentabilidade, editor do Blog TerraGaia

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Sobre Antonio Carlos Teixeira

Executivo de Comunicação I Assessor Estratégico I Sustentabilidade/Baixo Carbono I Editor I Editor do blog TerraGaia //// Executive of Communication I Strategic Advisor I Sustainability/Low Carbon I Editor I TerraGaia blog Editor.
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3 respostas para Rio+20: o legado (que ainda é) possível

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