Água de beber?

Como a mudança climática, disputas hidropolíticas e inovações energéticas estão levando a água ao topo das discussões sobre segurança, produção de alimentos, gestão urbana sustentável e sobrevivência das nações

 

“Água de beber
“Água de beber camará
“Água de beber
“Água de beber camará…”

(Tom Jobim)

 

Por Antonio Carlos Teixeira, editor do blog TerraGaia

 

Brasil. Somos um país rodeado por água: um fabuloso litoral de mais de 7.367 Km; pelo menos dois imensos aquíferos (Alter do Chão, com 96 mil quilômetros cúbicos, e Guarani, de 45 mil quilômetros cúbicos); uma fantástica rede fluvial formada por bacias gigantescas como a dos rios Amazonas, Paraná e São Francisco; e um clima equatorial que produz chuva praticamente o ano inteiro. Sim: quando falamos em água no Brasil podemos dizer que esse rico e importantíssimo elemento natural está presente não apenas na superfície, mas acima e abaixo das nossas cabeças. Ou seja: no Brasil, lugar de água não é apenas nos rios, lagos e praias: “dá” até na terra e no ar…

Infelizmente esse é um privilégio (quase) brasileiro. No Ano Internacional da Energia Sustentável para Todos, nunca é demais dizer que a água hoje está valendo muito: antes reconhecidamente um elemento vital para a nossa saúde física; essencial para a geração de alimentos; fonte geradora de energia elétrica; e fundamental para manter a vida no planeta, a água agora (ou a sua escassez..) está sendo tratada como assunto de segurança nacional por alguns países.

Água de poder?

Disputas pela posse de regiões atravessadas por cursos de rios ou dotadas de nascentes têm gerado conflitos ou no mínimo tensão entre países, que se vêem envolvidos numa novo jogo de poder, soberania e sobrevivência: a hidropolítica

Em fevereiro do ano passado, o Senado dos Estados Unidos apresentou o relatório

Avoiding Water Wars: Water Scarcity and Central Asia’s Growing Importance for Stability in Afghanistan and Pakistan” (Evitando Guerras da Água: Escassez de Água e a Crescente Importância da Ásia Central para a Estabilidade no Afeganistão e Paquistão).

O documento examina a política dos Estados Unidos em relação à escassez e gestão da água na Ásia Central e no sul do continente. “A água desempenha um papel cada vez mais importante na segurança, diplomacia e interesses dos Estados Unidos na região. Este relatório fornece um panorama significativo e várias recomendações importantes para avançar a política dos EUA na Ásia Central e no Sul do continente com relação a este vital recurso transfronteiriço”, diz no texto o senador democrata John Kerry, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado.

A crescente demanda por água é diretamente proporcional ao aumento da produção de alimentos e geração de energia elétrica, dois fatores cruciais para o desenvolvimento de qualquer país. No fervente caldeirão hidropolítico do sul e do centro da Ásia, a questão fica ainda mais delicada por causa das inundações que têm sido provocadas pelo derretimento das geleiras da cordilheira do Himalaia. As causas? Segundo cientistas, o ritmo acelerado das mudanças climáticas no planeta. Os custos para (tentar) reverter no continente os estragos previstos pela intensificação do aquecimento global? US$ 40 bilhões, segundo dados do Banco Asiático de Desenvolvimento, valor nove vezes maior que o disponível atualmente no mundo inteiro para combate e adaptação às alterações no clima.

Numa região de intensa instabilidade de relações, o relatório do senado dos EUA classifica a água como um “vital recurso transfronteiriço”. Não é para menos. Além de Afeganistão e Paquistão, o imbróglio na região envolve também China, Índia, Nepal e Bangladesh.

Esses países estão envolvidos em discórdias a respeito de construção de barragens, posse de terras e regulação de cursos d’água dos principais rios da região, entre eles, o Brahmaputra, Indo, Ganges, Tista e seus afluentes. Cerca de 1 bilhão de pessoas vivem próximas às bacias hidrográficas nascedouras no Himalaia, como as do Indo e Ganges-Brahmaputra. Se os glaciares do Himalaia desaparecerem durante as próximas décadas (estimativas científicas apontam para um estado crítico da região em 2035, se persistir o ritmo atual das perdas), todos esses países podem sofrer com severas inundações seguidas por estiagem.

Água de sustentar?

Além das disputas transfronteiriças, a questão da água também está sendo debatida dentro de outra esfera: a das cidades sustentáveis.

Atualmente, 52% das pessoas no planeta (ou 3,640 bilhões de pessoas) vivem no meio urbano. E estes números aumentarão num ritmo acelerado, pois estima-se até 2050 esse percentual alcance 70%. Com um detalhe: até lá, seremos muito mais de sete bilhões de seres humanos consumindo recursos naturais, como a água.

Daí a importância de projetos sustentáveis urbanos que estão sendo realizados hoje em cidades como Amsterdam (Holanda), Estocolmo (Suécia), Masdar (Emirados Árabes Unidos) e Cidade de Singapura. Em pelo menos duas delas (Amsterdam e Cidade de Singapura), a gestão da água faz parte da linha de frente dos projetos de eficiência urbana.

De acordo com o estudo “Technologies for Future Cities: Integrating Efficiency, Sustainability, and Environmental Concerns” (Tecnologias das Cidades Futuras: Integrando Eficiência, Sustentabilidade e Preocupações Ambientais), da consultoria Lux Research, a Cidade de Singapura destaca-se como líder mundial em infraestrutura urbana inteligente pelos seus projetos de cunho sustentável de canalização, distribuição e gestão de água potável. Em Estocolmo, o distrito industrial de Hammarby Sjöstad ganhou a fama de sustentável muito pelas ações na gestão de água, energia e resíduos.

Aliás: não há como falar em gestão de água para projetos de cidades ecoeficientes sem incluir o tema da energia. Nos Emirados Árabes, a energia para dessalinizar água, transporte, armazenamento e distribuição compreende 70% do custo da água. Tanto Masdar quanto Abu Dhabi tratam destes temas com prioridade máxima dentro dos seus projetos de gestão urbana sustentável. O príncipe herdeiro de Abu Dhabi, sheik Mohamed bin Zayed Al Nahyan, chegou a declarar que, nos Emirados Árabes, “a água é mais crucial do que o petróleo”. A declaração pode até soar um tanto exagerada num primeiro momento. Mas quando nos referimos a uma região do planeta com estoques não muito generosos de água comparados a outras áreas do mundo (como o Brasil, por exemplo), não é muito difícil perceber que água no Oriente Médio é encarada como questão de segurança e de sobrevivência. E petróleo não se bebe…

Água e energia são essenciais para o desenvolvimento da humanidade. A estratégia de Abu Dhabi é reunir conhecimentos e aprender com experiências de outros países no trato da gestão estratégica destes insumos. Tanto que a capital dos Emirados Árabes irá sediar, entre os dias 15 e 17 de janeiro de 2013, as cúpulas internacionais de Água e de Energia do Futuro.

Água de transformar?

A geração de resíduos é um dos temas mais presentes dentro das discussões e projetos sobre urbanização sustentável. Quanto mais pessoas morando em cidades, maior será a quantidade de dejetos a ser descartada e tratada. Além disso, as demandas por água e energia aumentam no mesmo ritmo, ampliando ainda mais as responsabilidades e os desafios na infindável missão de (tentar) equilibrar desenvolvimento tecnológico e sustentabilidade planetária. Mas as soluções estão aparecendo.

Uma pesquisa para reutilização, tratamento e controle de águas residuais está sendo coordenada pela empresa espanhola Adasa Sistemas. O projeto, chamado “ITACA” (sigla em espanhol para Investigación de Tecnologías de Tratamiento, Reutilización y Control para la Sostenibilidad Futura en la Depuración de Aguas), tem como objetivo investigar novas tecnologias para tratamento de água, utilizando bactérias para transformar a energia química contida nas águas residuais em eletricidade. O projeto foi um dos sete escolhidos pelo Ministério de Ciência e Inovação da Espanha para fazer parte do programa INNPRONTA, voltado para o financiamento de pesquisas industriais. O consórcio liderado pela Adasa é formado por 10 empresas e 11 universidades e centros tecnológicos, entre eles, o Departamento de Química Analítica e Engenharia Química da Universidade de Alcalá (Madri, Espanha) e a empresa Aqualia.

Se vingar, o projeto marcará três golaços para o time do desenvolvimento sustentável planetário: remoção de matéria orgânica de águas residuais ou efluentes industriais e urbanos; geração de energia elétrica; e purificação de águas cinzas para reutilização.

Água de captar?

Não muito longe dali, no Marrocos, uma outra experiência também está sendo vista como uma forma viável de tratar a segurança da água e o bem-estar das pessoas. Pesquisadores da Universidade de La Laguna, de Tenerife (Espanha) e da Fundação Si Hmad Derhem, do Marrocos, trabalham num projeto conjunto de obtenção de água das nuvens por meio de sistemas artificiais. O objetivo é viabilizar o fornecimento de água potável a populações isoladas do país, beneficiando principalmente mulheres e crianças, que atualmente são forçadas a percorrer longas distâncias em busca desse elemento.

A experiência tem se mostrado bastante promissora: entre dezembro de 2010 e junho de 2011, 10 telas de 15 metros quadrados ficaram expostas para captação de gotículas de água potável vindas das nuvens e transportadas pelo vento. A captação diária no período foi registrada em cerca de 10,6 litros por metro quadrado. No ano passado, um sistema de dutos construído com cerca de 1.255 metros levou a “água das nuvens” para uma escola e três comunidades rurais, beneficiando quase 300 pessoas e cerca de 500 animais domésticos.

Por meio de sistema relativamente simples, a água vinda dos céus tornou-se um alento para dezenas de famílias que agora vislumbram uma melhor qualidade de vida para adultos, mulheres e crianças, aumento dos níveis de escolaridade infantil e redução de doenças provocadas pela ingestão de água contaminada ou não potável.

E você que é um privilegiado por não fazer parte do universo entre 800 mihões e 1 bilhão de pessoas que não têm acesso diário à água no planeta, experimente, pelo menos, passar pelo racionamento desse verdadeiro “ouro líquido do Século 21”, desafio feito por três ativistas da ONG espanhola ONGAWA, que aceitaram a tarefa de viver com apenas 50 litros de água diários durante 21 dias.

Água de beber?

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Sobre Antonio Carlos Teixeira

Gestor de Comunicação para Sustentabilidade, Assessor Corporativo de Transição para uma Sociedade de Baixo Carbono, editor do blog TerraGaia. //// Communication Manager for Sustainability, Corporate Advisor for Transition to a Low Carbon Society, TerraGaia blog editor.
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