II Congresso Sul Americano de Energias Renováveis e Meio Ambiente: a importância da percepção ambiental para a sustentabilidade

Dia foi marcado por discussões sobre geração de resíduos sólidos, energia proveniente de biomassa e caminhos para ampliar a percepção ambiental do cidadão consumidor

A percepção ambiental brasileiro como fator de valorização da sustentabilidade no tratamento de resíduos sólidos urbanos (RSU) foi o principal tema das discussões durante as palestras e debates ocorridos hoje no segundo e último dia do II Congresso Sul Americano de Energias Renováveis e Meio Ambiente (Xanxerê, SC).

Na questão do descarte de RSU, o brasileiro gera diariamente pouco mais de um quilo de lixo, conforme assinalou Alceu Lorenzon, presidente do Sindicato das Indústrias de Material Plástico e Borracha do Oeste de Santa Catarina (Sindiplasc) e diretor da empresa Alcaplast. Em termos anuais, a quantidade produzida pelos brasileiros já ultrapassou 61 milhões de toneladas, a maioria orgânicos (61%), seguidos por papel/papelão (25%) e plástico (5%). O problema se agrava pelo fato de o país só reciclar 12% dos 50% de RSU que poderiam ser utilizados para esse fim. Ou seja: 88% dos que o brasileiro descarta vão direto para lixões, quando apenas 10% desses resíduos é que realmente não teriam condições de reaproveitamento. “Mais de 40% desses resíduos poderiam ser transformados em biomassa”, aponta Lorenzon.

Ronaldo Soares: “Um dos compromissos do Plano Nacional de Resíduos Sólidos será estimular uma mudança cultural na população brasileira: não existe lixo e sim resíduo”

Como dirigente e representante da indústria do plástico, Lorenzon reconhece que o produto registra o pior desempenho no índice de reciclagem no Brasil: apenas 20% das 100 milhões de toneladas produzidas anualmente são destinadas a esse fim.

Mas o que pode ser feito para reverter essa situação? Segundo Lorenzon, um dos caminhos é aumentar o serviço de coleta seletiva nas cidades do país. Apenas 8% dos municípios (ou seja: somente 443 cidades) têm coleta seletiva. Isso quer dizer que apenas 12% da população do Brasil (22 milhões de pessoas) dispõem deste serviço. Marcelo Langer, gerente florestal da Faber Castell, completa que 59% dos municípios brasileiros dispõem seus resíduos sólidos em lixões. Ele cita que investimentos em logística reversa são fundamentais para reduzir a quantidade de resíduos gerados não apenas no Brasil, mas em todo o mundo: atualmente a sociedade global joga fora 7 bilhões de quilos de lixo por dia.

Fernanda Daltro: “criação do PNRS levará fabricante a repensar a cadeia de produção e buscará um cidadão mais consciente”.

Para o Ministério do Meio Ambiente, o RSU é um problema não apenas ambiental, mas também social e econômico. Na palestra sobre a Lei Nacional de Resíduos Sólidos (nº 12.305, de 2 de agosto de 2010), o representante da Secretaria de Recursos Hídricos do MMA, Ronaldo Hipólito Soares, anunciou que até agosto de 2014 todos os lixões no Brasil serão transformados em aterros municipais. Um dos compromissos do Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS, “que deverá ser assinado pela presidente Dilma Rousseff na próxima Semana do Meio Ambiente”) é estimular uma mudança cultural da população brasileira frente a esse assunto. “Temos que perceber que não existe lixo e sim resíduo”, assinalou. A partir deste entendimento, segundo ele, ações fundamentais, como a logística reversa terão melhores apoio e resposta da sociedade. Para a gerente de Produção e Consumo da Secretaria de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental do MMA Fernanda Daltro, a criação do PNRS irá estimular mudança de pensamento e de comportamento na sociedade. “Levará o fabricante a repensar suas atitudes sobre a cadeia de produção e buscará um cidadão mais consciente”.

Outro fator preponderante é o preço do custo da coleta seletiva: enquanto que a tradicional custa R$ 85 por tonelada, a seletiva chega a R$ 367. Lorenzon acredita ainda que o consumidor pode colaborar com a ampliação dos números da sustentabilidade do plástico aumentando a sua percepção ambiental a partir do exercício dos 5 Rs: reduzir (o consumo), reutilizar, reciclar, repensar (atitudes) e recusar (o que não for necessário).

Edson Marció e o projeto de sacolas retornáveis de Xanxerê: em três anos, mais de 120 toneladas de sacolas plásticas deixaram de circular na cidade

Um exemplo da prática dos 5 Rs está vindo de Xanxerê, a cidade-sede do congresso. Em abril de 2009, a cidade lançou o projeto de utilização de sacolas retornáveis e hoje é motivo de orgulho da população. Tudo começou em setembro de 2008, quando um grupo de pessoas reunidas leu uma mensagem de um e-mail à qual fazia menção à agressão que sacolas plásticas faziam à flora, fauna e ecossistemas como rios e oceanos. Uma dessas pessoas era o empresário do setor de supermercados Edson Marció. “Levamos a idéia à Prefeitura e à população, que aderiu ao projeto sem que houvesse a necessidade de se criar ou impor uma lei específica”, disse ele em sua palestra, ressaltando o caráter espontâneo da adesão. Deu certo. Logo no primeiro mês do projeto, a utilização de sacolas plásticas por parte dos moradores caiu de 1 milhão por mês para 100 mil. “Passados três anos, 29 supermercados de Xanxerê aderiram ao projeto, oferecendo sacolas retornáveis à população e fazendo com que mais de 120 toneladas de sacolas plásticas deixassem de circular na cidade”, ressalta Marció, que é coordenador de divulgação do projeto. Xanxerê tornou-se um exemplo para a criação de projetos semelhantes em mais de 30 municípios do oeste catarinense e em cidades de São Paulo, Paraná e Minas Gerais. “O projeto contribuiu para uma mudança de hábitos que beneficia a população e o meio ambiente. Este é o nosso compromisso com o planeta”, frisou Edson Marció.

Iara Dreger: Universidade Federal da Fronteira Sul-SC tem projeto para gerar energia de biogás vinda de dejetos suínos

Projetos como o das sacolas retornáveis de Xanxerê mostram que é possível gerar benefícios sociais, econômicos e ambientais a partir da revisão de conceitos e hábitos de consumo. Um consumo que tem se tornado cada vez mais voltado para a cultura do descartável, como destacou o professor Dimas Agostinho da Silva. “Precisamos sair da cultura do ‘jogar fora’ para a da valorização da reutilização e da reciclagem”, frisa. Na palestra “Potencial e perspectivas no uso de biomassa vegetal proveniente dos resíduos sólidos urbanos”, o coordenador do laboratório de energia de biomassa da Universidade Federal do Paraná (UFPR) disse que 47% da matriz energética brasileira é renovável. No caso da utilização de biomassa para geração de energia, a utilização pelo nosso país saltou de 33% em 1970 para 70% em 2006. Prova disso, é a criação de uma unidade experimental de biogás (UEB) pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS-SC). Segundo Iara Dreger, especialista em energias renováveis da universidade, a proposta da UFFS é utilizar dejetos suínos para geração de energia vinda do biogás. Já o deputado federal Pedro Uczai (PT-SC) disse que uma das discussões do novo marco legal das energias renováveis é que estimular novas formas e padrões de produção e consumo. “Queremos fomentar o conceito de que o consumidor pode ser também um produtor de energia renovável”, aponta.

Atualmente, o conceito é de que todo e qualquer tipo de resíduo orgânico pode ser reaproveitado. Em termos globais, “somos a sociedade da biomassa”, corrobora o professor Dimas, citando o economista francês Ignacy Sachs. Oxalá sejamos também a sociedade da sustentabilidade.

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Sobre Antonio Carlos Teixeira

Gestor de Comunicação para Sustentabilidade, Assessor Corporativo de Transição para uma Sociedade de Baixo Carbono, editor do blog TerraGaia. //// Communication Manager for Sustainability, Corporate Advisor for Transition to a Low Carbon Society, TerraGaia blog editor.
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