Contra eventos climáticos extremos: cuidar para mudar comportamentos e provocar atitudes

Pegada de Homo Erectus, norte do Quênia, 1,5 milhão de anos – Foto Matthew Benett – Bournemouth University, UK

Por Antonio Carlos Teixeira, editor do blog TerraGaia

A saga do ser humano do planeta Terra é repleta de casos e fatos envolvendo as forças naturais. Em todas as crenças, mitologias e povos, da ancestralidade até os dias atuais, temos exemplos de relacionamentos muito próximos entre o homem e os elementos. No passado, eram identificados como presenças divinas ou sob seu comando. E essas forças vinham carregadas de simbolismos que podiam ser entendidas como benção ou castigo: os dilúvios registrados no Velho Testamento e nas Tábuas da Suméria, os furacões (Kamikaze ou “ventos divinos”) no Japão feudal, os maremotos e terremotos que devastaram civilizações continentais nos mitos de Atlântida e Lemúria, as pragas do Antigo Egito… Se naqueles tempos, seres superiores, deuses, eram temidos ou adorados por fazerem da natureza algozes ou salvadores da raça humana, atualmente, é o sapiens que está no centro de uma discussão, da qual poderá sair como benfeitor, vilão ou um apenas um espectador em relação a um dos pilares do meio ambiente e da nossa sobrevivência no planeta: o clima.

Quando nos referimos a mudança climática, logo nos vêm à memória palavras como incerteza, risco, saúde, futuro… Todas essas palavras também estão associadas ao mercado de seguros. Quando juntamos as duas expressões, aparecem também as palavras prevenção, comportamento e atitude. Este texto não tem a pretensão de discutir perdas decorrentes de catástrofes naturais.

E sim ganhos.

Ganhos podem evitar e prevenir perdas. E um dos caminhos para alcançar este objetivo é a percepção dos riscos inerentes à mudança do clima, do aquecimento do planeta. O risco de uma alteração severa nas condições climáticas da Terra existe e está sendo manifestado em todas as partes do globo: desde 2000, uma sequência de ondas de calor, secas, inundações, enchentes, furacões e tornados tem sido registrada em várias partes do mundo, de acordo com estudo da Organização Mundial de Meteorologia (ver box). E esses acontecimentos afetam a todos nós. Sem distinção. Se o nosso estilo de vida está influenciando ou não a dinâmica do clima no planeta é uma discussão que ainda deve perdurar: essas alterações são cíclicas? Fazem parte da dinâmica planetária? Estão associadas ao comportamento de outro corpos celestes do sistema solar? São consequência do nosso estilo de vida?

“Ghosts”, Lady Dementia

Por mais que estudos e relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) da ONU estejam alertando que as possibilidades dos efeitos das mudanças climáticas serem fruto da ação do homem no meio ambiente sejam de mais de 90%, o debate sobre a participação do ser humano nos distúrbios do clima está longe de chegar a um consenso. E é muito provável que não cheguemos a ele.

Mas a discussão aqui é: sendo ou não responsáveis pelas perturbações climáticas nós somos os “gestores” da Terra. Embora o planeta não precise de nós para continuar a flutuar no espaço, nós dependemos dele para sobreviver e para continuar a levar nossas vidas, planejar, negociar, relaxar, estudar, trabalhar, descansar… Ou seja: a sociedade humana prosperou e evoluiu a partir de determinadas pré-condições ambientais que vigoram no planeta há milhões de anos. Se houver desequilíbrio nesse estado pode comprometer o futuro da raça humana. E, ao que tudo indica, o clima global começa a dar sinais de alteração.
O que nós temos que fazer?

Agir.

E agir significa mudança de comportamento. Essa mudança de comportamento está associada a prevenção, mitigação e redução do impacto no desequilíbrio do clima mundial, seja ele oriundo de quaisquer causas.

Outono: tempo de introspecção

A mobilização é dever de toda a sociedade, a partir da revisão de nossos hábitos e de como nos relacionamos com o meio ambiente e os recursos naturais. Temos que entender e assimilar o delicado (mas ao mesmo tempo poderoso) processo de interação entre rios, mares, oceanos, ventos, florestas, ecossistemas e biodiversidade com o nosso bem-estar. Em duas palavras: preservar e conservar. E quando nos referimos a preservação e conservação, estamos nos comprometendo com o ato de:

Cuidar.

Cuidar dos nossos bens significa querer mantê-los para possamos usufrui-los amanhã. Cuidar é a ação devida para viabilizar um longo tempo de vida, uma longa duração para os bens ou os seres que temos por estima. Cuidar é um dos sinônimos de uma expressão antiga que hoje conhecemos por sustentabilidade:

Bem comum.

Ao praticarmos os significados de “agir”, “cuidar” e “bem comum” temos todas as condições de ganhar pontos no enfrentamento das causas e consequências dos distúrbios climáticos. Todos podem dar a sua contribuição.

Inclusive o setor de seguros.

Temos que entender e assimilar o delicado (mas ao mesmo tempo poderoso) processo de interação entre rios, mares, oceanos, ventos, florestas, ecossistemas e biodiversidade com o nosso bem-estar. Em duas palavras: preservar e conservar

Seguro é relacionamento, responsabilidade e conscientização
O seguro tem uma vantagem: o próprio nome do segmento já nos remete a algo relativo  à segurança, tranquilidade, conforto. Ao associá-lo à questão climática, entram em cena as palavras “prevenção”, “preservação”, “conservação”, “cuidado”, e “bem comum”.

Outro ponto positivo a ser explorado no combate ao aquecimento global e na prevenção contra as consequências e efeitos desse desequilíbrio no clima é o apelo emocional inerente ao setor. Estamos nos referindo a um segmento que lida com garantia de bens, preservação de patrimônios e conservação de vidas. Já exerce ações de responsabilidade social. Mas agora, mais do que nunca, precisa ampliar suas atividades de caráter socioambiental e de apoio à sustentabilidade. Mas essa sustentabilidade não deve ser encarada apenas para o negócio do seguro. A sustentabilidade tem que ser ampliada para todo o planeta.

Um dos focos dessa contribuição do seguro à sustentabilidade e às atividades socioambientais pode ser o relacionamento. Seguro é relacionamento: seja entre os agentes que o compõem; entre os profissionais do setor; ou desses com consumidores e segurados. O fio condutor desses relacionamentos é a informação: se transformada em conhecimento, gera uma poderosa ferramenta para auxiliar no entendimento da dinâmica ambiental e de como podemos reduzir impactos e aumentar a proteção dos patrimônios natural e pessoal.

Seca na Amazônia, 2005. Foto: Greenpeace

Outra linha de ação pode ser a do consumo responsável. Seguro é responsabilidade: segundo o relatório “Recycling – From E-waste to Resources”, lançado recentemente pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP, United Nations Environment Programme), o mundo está produzindo 50 milhões de toneladas de lixo eletrônico (“e-waste”) por ano. No Brasil, a conta é de 0.5 kg per capita, o que dá cerca de 95 mil toneladas anuais de “e-lixo”, provenientes de aparelhos eletrônicos usados, como computadores, celulares, tevês de alta definição, notebooks, smartphones, aparelhos de som, impressoras, escâneres e todo o tipo de acessórios que estão presentes no modo de vida contemporâneo. Nesse sentido, o setor de seguros pode colaborar com a conscientização ambiental, auxiliando na divulgação da política dos 5 Rs: reduzir (consumo), reutilizar (utensílios, embalagens), reciclar (resíduos), recusar (o que não é necessário) e repensar (nossas atitudes).

Não se pode discutir consumo responsável sem tocar na questão do descarte de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU). Ainda dentro do tema das “e-sucatas”, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA, sigla em inglês de Environmental Protection Agency) aponta que, das 3,1 milhões de toneladas de resíduos dessa categoria produzidas no país em 2008, apenas 14% (434 mil toneladas) foram destinadas à reciclagem. E o que foi feito com as 2,6 milhões de toneladas restantes? Simplesmente foram parar em aterros sanitários, fornos incineradores ou em outros países, entre eles, Gana, Tanzânia, Vietnã, Malásia, Quênia, Haiti, Filipinas, Tailândia e… Brasil! Já a Europa tem como “clientes” Nigéria, Rússia, Paquistão, Singapura, Ucrânia e Egito. Detalhe: os países pobres e em desenvolvimento são os que têm menos condições de se proteger contra eventos provocados por distúrbios climáticos e de se recuperar desses impactos catastróficos.

Sabe-se lá Deus qual é o destino desses “e-cacarecos” que estão sendo “exportados” para as nações mais pobres. Não é difícil de imaginar que essas “e-mundícies” (cujos componentes são carregados de elementos químicos e metais pesados) estejam sendo devolvidas à atmosfera do planeta, por meio de queima ou incineração desregulada, ou da contaminação de solos, aquíferos, rios, lagos, estuários e mares da Terra. Ou seja: estamos escondendo esses “e-resíduos” debaixo do “tapete” da natureza. E é bem provável que a fatura dessa conta esteja sendo preparada sob a forma de alterações no clima do planeta.

lixo eletrônico “exportado” dos países desenvolvidos para Gana, África: mundo produz 50 milhões de toneladas de “e-waste” por ano

Seguro é conscientização: não basta apenas reduzirmos o consumo. É urgente que governos, empresas, fábricas e indústrias assumam suas responsabilidades. Para mitigar os impactos das “e-bugigangas” no meio ambiente global, os cidadãos precisar ser esclarecidos sobre as melhores formas de descarte do seu aparelho. E a principal delas, sem dúvida, e a de retorno ao fabricante. Eis aí outra opção para o setor de seguros colaborar na redução dos impactos antrópicos no clima e no ambiente planetário.

Programas de logística reversa em parceria com estabelecimentos comerciais, indústrias e fabricantes de eletroeletrônicos (que sempre nos sugerem ou oferecem algum tipo de seguro ou cobertura para esses produtos) podem ser uma opção muito útil para esclarecer a população, o consumidor, o cidadão. E têm todas as possibilidades de serem identificados como uma questão de respeito (a quem investe na marca e na cobertura do produto) e de responsabilidade (social, corporativa e socioambiental).

Para enfrentar os efeitos de eventos climáticos extremos, o setor de seguros pode contribuir para mudar comportamentos e provocar atitudes.

Numa palavra: cuidar.

Box
Quente, seco, molhado e furioso: distúrbios climáticos se espalham pelo planeta
Pelo menos 16 grandes manifestações climáticas extremas ocorreram em várias partes da Terra desde 2000. Segundo a Organização Mundial de Meteorologia, esses eventos foram  protagonizados por:

ondas de calor: provocaram o verão mais quente da história do Canadá (2005); a morte de 35 mil pessoas na Europa (2003); levaram a Argentina a temperaturas recordes de 40° (2009); e foram responsáveis por temperaturas extremas e incêndios florestais em Moscou, capital da Rússia (2010);

seca: causou duas grandes estiagens na Amazônia, no Brasil (2005 e 2010); e um longo período sem chuvas no Chifre da África (2006);

inundações e enchentes: deixaram a cidade de Nova Orleans, nos Estados Unidos, dias debaixo d’água (2005); causaram o outono mais úmido desde 1766 na Inglaterra e no País de Gales, no Reino Unido (2000); afetaram a Amazônia, no Brasil (2009); foram provocadas por chuvas torrenciais, que causaram deslizamentos e mataram cerca de 1.500 pessoas na China (2010); provocaram a pior inundação no Chifre da África (2006); mataram centenas e afetaram cerca de 20 milhões de pessoas no Paquistão (2010); e causaram a devastação de uma região do tamanho da Alemanha e da França juntas no nordeste da Austrália (2010);

furacões: registraram número recorde de ocorrências nos Estados Unidos (2005): só o Katrina matou mais de 1.300 pessoas em Nova Orleans;

tornados: foram provocados por uma série de tempestades e mataram centenas de pessoas no sudeste dos Estados Unidos (2011).

Este artigo também foi publicado na edição número 5 (agosto de 2011) da Revista Opinião.Seg, especial “Eventos climáticos extremos”.

Sobre Antonio Carlos Teixeira

Jornalista, pós-graduado em Ciências Ambientais (UFRJ); 20 anos de experiência na área de comunicação, jornalismo, edição de livros, revistas, sites, blogs e gestão de equipes; consultor/formador do primeiro Curso de Comunicação e Jornalismo Ambiental promovido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD, São Tomé e Príncipe, setembro 2014); integrante da Delegação Oficial da Câmara Brasil Alemanha para visita à IFAT Entsorga 2010 (Feira Internacional de Água, Esgoto, Lixo e Reciclagem), em Munich (Alemanha); organizador e coautor do livro “A Questão ambiental – Desenvolvimento e Sustentabilidade (Rio de Janeiro: Funenseg, 2004); autor de artigos, palestrante e mediador (congressos, debates, painéis) nas áreas de comunicação, seguro, meio ambiente, educação ambiental e sustentabilidade; coautor do projeto “Proposta de ações de educação ambiental para a Ilha Primeira, Barra da Tijuca – RJ” (Brasil, 2005); editor, videomaker e jurado de festivais de cinema ambiental.
Esse post foi publicado em Aquecimento global, Clima, Comunicação, Consciência ambiental, Consumo, Desenvolvimento sustentável, Educação ambiental, Empresas, Espiritualidade, Impactos ambientais, Mudança climática, Preservação, Responsabilidade corporativa, Responsabilidade socioambiental, Seguro e mudanças climáticas, Sustentabilidade e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Contra eventos climáticos extremos: cuidar para mudar comportamentos e provocar atitudes

  1. Republicou isso em Comunicação Ambiente Sustentabilidadee comentado:

    Sobre eventos climáticos, sustentabilidade e o setor de seguros

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s