Comunicar para educar

Entrevista: Mônica Pinto, jornalista, autora da pesquisa “Educomunicação para as Mudanças Climáticas: A Contribuição da Grande Imprensa Brasileira para uma Nova Consciência”

Comunicar para educar. Educar para comunicar. Talvez, nunca na história da humanidade essas duas ações tenham sido tão necessárias como nos dias de hoje. Ainda mais quando a sociedade contemporânea vivencia uma das suas mais contundentes discussões: a interferência no clima do planeta Terra. Boa parte dessa discussão centra-se no modo predatório dos nossos padrões de produção e de consumo. São “insustentáveis” para a sobrevivência (nossa e de todos no Planeta), como alerta o capítulo 4 da Agenda 21. Mas, se a retórica ambiental tem sido cada vez mais objeto de reflexões entre os agentes da sociedade, a sua prática efetiva ainda deixa muito a desejar. O que pode ser feito, então, para transformar teoria ambiental em ação? A jornalista Mônica Pinto aponta uma solução: para acabar com verdadeiro “abismo” entre discurso e prática é preciso disseminar o conceito da educomunicação, uma metodologia que propõe o uso de recursos tecnológicos modernos e de técnicas de comunicação nas salas de aula.

Em entrevista exclusiva ao TerraGaia, Mônica Pinto acredita que o trabalho conjunto dos profissionais de educação e de comunicação pode ajudar a população a ampliar seus esclarecimento sobre os efeitos das mudanças climáticas no Brasil. “A compreensão que se vislumbra é fundamental para diminuir a resistência às mudanças comportamentais das quais o ser humano não mais pode prescindir”, ressalta ela, autora da pesquisa de Mestrado “Educomunicação para as Mudanças Climáticas: A Contribuição da Grande Imprensa Brasileira para uma Nova Consciência”, que concorre ao Prêmio “Francisco Morel” da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom).

Por Antonio Carlos Teixeira, editor do blog TerraGaia

 

TerraGaia – O que a levou a pesquisar o tema educomunicação e mudanças climáticas?

Mônica Pinto – Eu busquei a especialização em Mudanças Climáticas e Sequestro de Carbono, ofertada pela Universidade Positivo, em Curitiba, porque já trabalhava com Jornalismo ambiental há muitos anos, desde que, na qualidade de consultora do PNUD, prestei serviços ao Ibama em Sergipe. E depois, como editora do portal Ambiente Brasil, fui compreendendo que, sob o guarda-chuva das mudanças do clima, estavam todas as questões de ordem ambiental mais desafiadoras da atualidade.

Por outro lado, na minha prática como jornalista, sempre observei a dimensão educativa da comunicação – claro que se baseada em parâmetros de qualidade. A chance de juntar esses dois interesses ocorreu quando foi aberto o processo seletivo para a primeira turma do Mestrado em Comunicação da Universidade Federal do Paraná. Uma das linhas de pesquisa era “Comunicação, Educação e Formações Socioculturais”. Vislumbrei a possibilidade de estudar o potencial educomunicativo de algumas campanhas do terceiro setor de foco ambientalista e meu projeto foi aprovado.

O que você acha do tratamento dado na mídia brasileira ao tema das mudanças climáticas?

Mônica – Na monografia da Especialização – Mudanças climáticas: A contribuição da Grande Imprensa brasileira para uma nova consciência –, usei a metodologia de análise de conteúdo em 562 notícias sobre o tema “mudanças climáticas”, publicadas no período entre dezembro de 2008 e agosto de 2009, em cinco jornais/portais de internet de grande penetração nacional – Folha de S. Paulo , O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, G1 e Yahoo!

Na ocasião, os resultados demonstraram forte predominância de notícias produzidas por agências internacionais, o que determinou uma cobertura mais genérica, em detrimento da internalização da pauta – ou seja, de abordagens específicas quanto à realidade brasileira frente ao problema.

Também verifiquei uma quase inexistência no noticiário analisado de correlações entre as mudanças climáticas e o modelo vigente de produção e de consumo.

Como você avalia a cobertura da mídia nos temas meio ambiente e sustentabilidade?

Mônica – Falando de modo empírico, em geral observo uma continuidade do que verifiquei cientificamente na monografia. As notícias são quase que exclusivamente factuais e sem se deter sobre questionamentos quanto ao nosso modelo de desenvolvimento, como se sabe, ainda bastante predatório aos recursos naturais, apesar de alguns avanços.

Educação, comunicação e mídia: qual é o grau de conscientização da sociedade brasileira a respeito do tema “mudança climática”?

Mônica – Quando foi criado o Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, em 2000, ainda no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, ele trazia, como primeiro objetivo, “conscientizar e mobilizar a sociedade para a discussão e tomada de posição sobre os problemas decorrentes da mudança do clima por gases de efeito estufa”.

Não me parece que isso esteja sendo feito na alçada dos poderes públicos no que concerne à educação formal e, tampouco, no raio de alcance da grande mídia. É preciso registrar, entretanto, o papel de vários veículos de menor porte, especializados em notícias ambientais, de circulação especialmente na internet, nos quais se pode encontrar coberturas muito mais aprofundadas sobre os problemas ambientais da atualidade. São eles, mais as entidades do  terceiro setor ambientalista, que ocupam as lacunas deixadas pelo Estado em termos de conscientização. Infelizmente, sem o engajamento da grande mídia, esse propósito não tem a visibilidade que deveria ter.

Como a educação e a comunicação social podem contribuir para a transformação dos modos de produção e consumo, a partir do ponto de vista da sustentabilidade?

Mônica – No quarto capítulo da Agenda 21, se afirma textualmente que “as principais causas da deterioração ininterrupta do meio ambiente mundial são os padrões insustentáveis de consumo e produção, especialmente nos países industrializados”.  Mas, de modo geral, esses “padrões insustentáveis” não são trazidos para a vida das pessoas. Tornam-se, portanto, preocupação de poucos, por conta dessa distância entre palavras e a prática cotidiana, aquilo que todo mundo entenderia. Nesse aspecto, educação e comunicação mostram-se fundamentais para transpor esse abismo. Infelizmente, nem sempre é o que ocorre.

Um exemplo claro: em qualquer aula de educação ambiental destinada a crianças fala-se da importância das árvores, do “respeito aos animais”, etc. Mas quantas vezes se vê alguém falando para as meninas que elas não precisam ter um monte de bonecas e, para os meninos, que eles podem ser bem felizes sem tantos carrinhos? Isso contraria a lógica da sociedade de consumo, sobre a qual o nosso modelo de desenvolvimento foi erguido.

Mônica Pinto: a educação e a comunicação são fundamentais para transpor o abismo existente hoje entre o discurso e a prática ambiental no país

Como a educomunicação pode ser utilizada como agente transformador para uma sociedade sustentável?

Mônica – O noticiário está repleto de informações sobre mazelas a que nosso planeta hoje está sujeito, ou que já vivencia comprovadamente. Se os professores levarem essas notícias à sala de aula, promovendo debates sérios e bem subsidiados sobre elas, as crianças e adolescentes começarão a transpor o abismo entre belos discursos e prática a que me referi anteriormente.

A mídia tem que fazer seu papel, de informar com um viés didático, mais aprofundado, fazendo as correlações entre o que fazemos e os impactos do que fazemos. E os educadores podem e devem se aproveitar desse manancial para repercuti-lo entre seus alunos. Isso funciona em relação a mudanças climáticas ou a qualquer outro tema de grande interesse, como o desmatamento, a ameaça de extinção sobre várias espécies e a gestão dos resíduos sólidos urbanos – só para citar alguns exemplos.

No artigo “Mudanças climáticas: o papel da comunicação como aliada da educação ambiental”, você critica a mídia brasileira por não repercutir a contento o número de vítimas fatais feitas pelas mudanças climáticas a cada ano. Se a mídia não está realmente ajudando no processo de informação da população sobre as alterações no clima mundial, quais são as opções que restam ao brasileiro para ampliar seus conhecimentos e senso crítico sobre o assunto?

Mônica – Não afirmo que “a mídia não está realmente ajudando”, isso seria injusto. No artigo citei o que classifico, ainda hoje, como “um claro exemplo de pouca perspicácia da grande mídia em relação ao que faz jus a um mínimo de aprofundamento”.

Vamos ao contexto: em maio de 2009, um relatório do Fórum Humanitário Global, entidade então presidida pelo ex-secretário geral da ONU, Kofi Annan, alertou para o fato de que as mudanças climáticas já respondem por cerca de 315 mil vítimas fatais a cada ano.

Em meu artigo, coloco esse dado e questiono: “No mesmo período, maio de 2009, a gripe H1N1 tornara-se uma pauta prioritária – exaustiva até –, com registros de cada vítima fatal no país. No mês de setembro, o último balanço divulgado pelo Ministério da Saúde, das mortes pela doença no Brasil, contabilizou 899 pessoas. Em que se pese a importância e legitimidade de disseminar as precauções recomendadas para evitar maiores danos da ‘nova gripe’, fica a pergunta: por que igual empenho não se verifica em termos de conscientização quanto ao papel de cada um no enfrentamento às Mudanças Climáticas?”.

De que forma profissionais de educação e de comunicação podem trabalhar juntos no esclarecimento dos efeitos das mudanças climáticas no Brasil?

Mônica – Se as pautas forem mais internalizadas, ou seja, se explicarem os impactos diferenciados das mudanças do clima especificamente no Brasil e como a população brasileira pode contribuir para a mitigação das nossas emissões de gases de efeito estufa, a comunicação já vai dar um salto de qualidade. Daí, os educadores, como eu já falei, terão melhores condições de levar esse debate à sala de aula. Mas, antes de tudo, claro, precisam ser dotados de subsídios que os impulsionem a tal propósito.

A compreensão que se vislumbra a partir daí é fundamental para diminuir a resistência às mudanças comportamentais das quais o ser humano não mais pode prescindir. Para usar um exemplo bem básico, é inadmissível que até hoje tenha gente lavando calçada com a mangueira. Assim como é um absurdo que a gestão pública dos resíduos sólidos continue, com raras exceções, tão incompetente, tratando como lixo material reciclável, capaz de gerar emprego e renda.

Sua pesquisa “Educomunicação para as Mudanças Climáticas: A Contribuição da Grande Imprensa Brasileira para uma Nova Consciência” concorre ao Prêmio “Francisco Morel”, na categoria Mestrado, da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). É uma boa oportunidade para chamar a atenção sobre a importância desse tema para a formação de consciência crítica sobre o papel da educação e da comunicação ambientais para o alcance da sustentabilidade no Brasil?

Mônica – No meio acadêmico, creio que sim. Abre-se mais uma janela para abordagens calcadas na pesquisa científica, algo especialmente importante porque alguns temas ambientais suscitam polêmicas que, muitas vezes, são tratadas mais com paixão do que com dados confiáveis.

Tenho um profundo respeito pelo trabalho das ONGs de foco ambientalista; sem a fiscalização e capacidade de mobilização delas, seguramente veríamos hoje um quadro ainda mais desolador. Agora, quanto mais suas preocupações e denúncias tiverem base científica, mais poder de fogo tendem a alcançar. Ganhariam muito em transmitir suas mensagens com precisão em termos de causas e efeitos, o que favoreceria inclusive a conquista do interesse da mídia. Muita gente defende que a academia tem de se aproximar da sociedade e acho que as ONGs sérias podem ajudar a construir essa ponte.

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Sobre Antonio Carlos Teixeira

Gestor de Comunicação para Sustentabilidade, Assessor Corporativo de Transição para uma Sociedade de Baixo Carbono, editor do blog TerraGaia. //// Communication Manager for Sustainability, Corporate Advisor for Transition to a Low Carbon Society, TerraGaia blog editor.
Esse post foi publicado em Aquecimento global, Clima, Comunicação, Consciência ambiental, Conservação, Consumo, Desenvolvimento sustentável, Educação, Educação ambiental, Estudos ambientais, Jornalismo Ambiental, Mudança climática e marcado , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Comunicar para educar

  1. Dilma Villela Silveira Arruda disse:

    Monica, é bom termos pessoas como você estudando e pesquisando com afinco sobre o que está acontecendo no Brasil e no mundo em termos de destruição ambiental e trazendo para nós informações mais precisas. Precisamos expandir nossa consciência em relação a cuidar melhor do nosso planeta, nem que seja só em nosso dia a dia, e no ambiente ao nosso redor. Dilma

    • moema viezzer disse:

      Monica,

      Parabéns por sua brilhante idéia em abordar esta questão.
      Torço para que seu trabalho seja premiado na Intercom.
      E que outras pessoas se debrucem também sobre a educação não-formal fora dos bancos da escola, na “ESCOLA DA VIDA” da qual todos e todas, sem distinção de idade, de formação acadêmica e de atuação profissional, social e política, estamos necessitando neste momento tão especial que vive o planeta e a humanidade.
      Com carinho
      MOEMA VIEZZER
      consultora socioambiental
      MOEMA

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