“Pequeno rei”: a história de Ryan


Entrevista: Ryan Hreljac, da Fundação Ryan’s Well

Em janeiro de 1998, um canadense tomou uma decisão que mudaria para sempre a sua vida e a de milhares de pessoas do planeta. Ao saber que muitos africanos adoeciam e morriam por causa da ingestão de água poluída, ele mostrou-se decidido a ajudar a reverter aquela situação. Tomado por um altruísmo abnegado, ele convenceu parentes, amigos e gente que nunca tinha visto antes a se engajar na sua ideia: construir poços para disponibilizar água limpa a seres que ele e nenhum dos seus compatriotas conheciam ou tinham visto pessoalmente. Mas eram seres tão humanos quanto qualquer canadense ou nascido em outra região do planeta. Dois anos depois, ele estava a mais de 11 mil km de distância, em Uganda, inaugurando o primeiro das centenas de poços que iria ajudar a construir pelo mundo.

Essa história já seria um belo exemplo de amor ao próximo qualquer que tivesse sido o seu protagonista. Mas o que a torna ainda mais especial é que o canadense em questão tinha apenas seis anos quando ouviu ecoar dentro de dentro de si a vontade e o chamado para ajudar pessoas a viver com dignidade. Essa é a história de Ryan Hreljac.

Em entrevista exclusiva ao TerraGaia, Ryan, hoje com 19 anos, conta detalhes do dia em que decidiu que tinha que fazer algo para ajudar pessoas a terem água potável ara consumir; a reação da família ao saber do seu ambicioso projeto; a motivação para conseguir o dinheiro necessário para o investimento; a emoção dos ugandenses no dia da inauguração do primeiro poço (“foi um dia de celebração”); a criação da fundação que leva o seu nome; e dá conselhos para aqueles que querem fazer como ele: ousar. “Para fazer uma mudança positiva no mundo, você precisa encontrar algo que o transforme num apaixonado e que lhe dê motivação para agir. Embora inicialmente os passos possam ser muito pequenos, se você persistir e nunca desistir, o impacto das suas idéias vai crescer ano após ano”, incentiva ele que, em dez anos de atividades, já completou mais de 630 projetos em 16 países, beneficiando mais de 700 mil pessoas. Uma atitude mais do que nobre, ainda mais para alguém cujo nome, em gaélico (o idioma irlandês), significa “pequeno rei”.

Por Antonio Carlos Teixeira, editor do Blog TerraGaia

 

TerraGaia – O seu envolvimento com as causas humanitárias começou quando ainda era uma criança. Quantos anos o senhor tinha e o que o levou a iniciar um projeto para dar acesso à água a pessoas do continente africano, uma realidade muito diferente da sua naquele momento?

Ryan Hreljac – Minha história é realmente muito simples. Um dia, em janeiro de 1998, quando eu tinha seis anos, estava sentado na sala de aula do meu curso de 1º Grau quando minha professora, a Sra. Prest, explicou que muitas pessoas na África estavam doentes e até mesmo morriam porque não tinham água potável para beber. Ela nos contou que algumas pessoas andavam por horas na África, por vezes apenas para conseguir água poluída.

Eu fiquei muito triste quando soube daquela situação, pois, no meu caso, tudo o que eu tinha que fazer era dar nove ou dez passos da minha sala de aula até o bebedouro para beber água potável. Antes desse dia na escola, achava que todos no mundo viviam como eu. Quando descobri aquela situação, decidi que tinha que fazer algo.

Fui para casa e pedi ajuda ao meu pai e à minha mãe. Eles me disseram que eu poderia fazer tarefas extras em casa para ganhar os 70 dólares que eu achava que eram necessários para construir o poço. Eu pensava que, com esse valor, iria resolver o problema.

Em quatro meses eu consegui juntar os meus primeiros 70 dólares. Mas foi então que eu soube que eram necessários 2 mil dólares para construir um poço. O problema era muito maior do que eu imaginava.

Comecei então a falar com clubes, escolas e quem mais quisesse ouvir a minha história para que eu pudesse levantar o dinheiro necessário para a empreitada. Depois que construímos o primeiro poço, em Uganda, nos tornamos uma instituição de caridade canadense e começamos a construir outros poços, muitos outros. Venho fazendo isso há mais de dois terços da minha vida e pessoas de todo o mundo têm se prontificado a ajudar.

TerraGaia – Como a sua família reagiu à sua iniciativa? O que eles acharam de uma criança se envolver num projeto ambicioso que nem os adultos estavam dando atenção?

Ryan Hreljac – Minha família sempre me deu apoio. Desde a primeira vez quando cheguei da escola e pedi os 70 dólares. Mas meus pais disseram que eu teria que ganhar esse dinheiro fazendo tarefas em casa. E eu fiz!

Água limpa, alegria da criança africana: “O fato de ter pouca idade no começo não foi um obstáculo no caminho do meu sonho de conseguir água potável para todos”

TerraGaia – Em qual cidade o senhor morava no Canadá nessa época? Tem irmãos? Está estudando atualmente?

Ryan Hreljac – Eu cresci em Kemptville, Ontário, a 55 km da cidade de Ottawa, capital do Canadá. Tenho três irmãos: Jordan (mais velho), Keegan e Jimmy, adotivo, que conheci em Uganda. Atualmente, faço faculdade na Universidade King’s College, em Halifax, Nova Scotia.

TerraGaia – Como o senhor concilia seus estudos com as ações da fundação?

Ryan Hreljac – Apesar de ser aluno em tempo integral, consigo conciliar meus estudos com meu trabalho na fundação: realizo palestras durante alguns finais de semana nos meses de verão e participo das quatro reuniões anuais do conselho da instituição.


Ryan ao lado de um poço construído pela sua fundação no município de Ogur, sub-distrito de Lira, em Uganda

TerraGaia – Quais foram as dificuldades que o senhor encontrou para levar o projeto adiante? Conseguir financiamento? Não ser levado a sério pelo fato de ser uma criança? Encontrar pessoas ou empresas dispostas a contribuir com a sua causa?

Ryan Hreljac – Sempre fui uma pessoa motivada. O fato de ter pouca idade no começo não foi um obstáculo no caminho do meu sonho de conseguir água limpa para todos. Fui inspirado pela bondade da minha família, amigos e desconhecidos que enviaram dinheiro para o projeto.

TerraGaia – Por que Uganda foi o primeiro país beneficiado pelo projeto? Quais foram os motivos que levaram a escolha desse país?

Ryan Hreljac – Quando levantamos o dinheiro necessário, apresentamos o projeto a uma organização que nos sugeriu Uganda como o país que mais precisava de um poço naquele momento. Concordei e pedi apenas que o poço fosse construído perto de uma escola.


Fundação Ryan’s Well, 630 projetos em 16 países: água potável e saneamento para mais de 700 mil pessoas no planeta

TerraGaia – Qual foi a reação dos governantes de Uganda ao conhecerem o seu projeto? Inicialmente houve apoio ou resistência?

Ryan Hreljac – O governo de Uganda foi muito favorável ao projeto.

TerraGaia – Qual região de Uganda foi escolhida para a construção do primeiro  poço? Por que a região foi escolhida?

Ryan Hreljac – O primeiro poço foi construído na Escola Primária Angolo, localizada em Otwal, no norte de Uganda. Era uma região marcada por muito sofrimento: 13 anos de atividades rebeldes contra o governo, muitos anos de seca e o flagelo da AIDS. A fonte de água mais próxima era um pântano localizado a cinco quilômetros de distância. Muitas crianças estavam doentes e tinham diarréia por causa da ingestão de água contaminada.


Ryan e Jimmy conversam com crianças numa escola: “Sempre fui uma pessoa motivada. Fui inspirado pela bondade da minha família, amigos e desconhecidos que enviaram dinheiro para o projeto”

TerraGaia – Como foi a reação dos moradores da região ao saber que seriam os primeiros a ter um poço construído pela sua iniciativa?

Ryan Hreljac – Foi um dia de celebração. Visitei a Escola Primária Angolo em julho de 2000, após a construção do poço. A estrada que leva até a aldeia onde está localizada a escola estava tomada por pelo menos cinco mil crianças, que batiam palmas e cantavam. Uma banda formada por moradores tocou várias músicas em minha homenagem e ainda fui cumprimentado pelos anciãos da aldeia.

TerraGaia – Em que momento o senhor percebeu a necessidade de criar a Fundação? Quando a instituição foi criada?
Ryan Hreljac – A Fundação Ryan’s Well foi criada em 2001 porque havia a necessidade de ampliar a arrecadação de fundos para os projetos de água. Em 2011, vamos comemorar nosso 10º aniversário.


Ryan junto ao seu primeiro poço, na Escola Primária Angolo, Uganda, em 2002

TerraGaia – Quantos poços foram construídos até hoje? Em quais países eles estão localizados?

Ryan Hreljac – Neste momento, nós completamos 630 projetos de água e saneamento em 16 países, levando água potável e saneamento a 700.880 pessoas.

Atualmente, a fundação concentra esforços e recursos em três regiões principais: leste da África: Uganda, Tanzânia, Quênia e Malauí; oeste da África: Gana, Togo e Burkina Faso; e América Central: Haiti. Também apoiamos projetos na Etiópia, Guatemala, Guiana, Nigéria, Índia, Zimbábue, Zâmbia e Lesoto.

TerraGaia – O senhor tem algum projeto para o Brasil? Conhece a realidade brasileira?

Ryan Hreljac – Ainda não temos projetos no Brasil. Mas temos uma compreensão geral dos desafios existentes no país: elevado número de pessoas vivendo em favelas e em áreas rurais sem acesso a água potável e a saneamento adequado.


“Eu fiquei muito triste quando soube que algumas pessoas andavam por horas na África, por vezes apenas para conseguir água poluída. Antes desse dia na escola, achava que todos no mundo viviam como eu. Quando descobri aquela situação, decidi que tinha que fazer algo”

TerraGaia – A sua iniciativa pode ser considerada um exemplo para um mundo onde muito dinheiro é destinado à fabricação de armas, que geram violência e dor a muitas famílias e crianças. Como se sente em relação ao impacto que o seu trabalho gera para o bem-estar de milhares de pessoas e ao redor do planeta?

Ryan Hreljac – Eu sou inspirado por pessoas que me dizem: “Mas eu sou apenas um estudante…”, “Eu sou apenas um professor…”. Mas eles podem, à sua própria maneira, fazer diferença. Me alegra ouvir depoimentos de pessoas se inspiraram na minha história e nos relatos dos que estão ajudando a fundação.

TerraGaia – Qual mensagem gostaria de enviar para as famílias e para as crianças e jovens do mundo?

Ryan Hreljac – Meu trabalho com a fundação tem me ensinado que, para fazer uma mudança positiva no mundo, você precisa encontrar algo que o transforme num apaixonado e que lhe dê motivação para agir. Embora inicialmente os passos possam ser muito pequenos, se você persistir e nunca desistir, o impacto das suas idéias vai crescer ano após ano.

Ryan na África, 11 mil km de distância da sua terra natal, o Canadá: “Para fazer uma mudança positiva no mundo, você precisa encontrar algo que o transforme num apaixonado e que lhe dê motivação para agir. Embora inicialmente os passos possam ser muito pequenos, se você persistir e nunca desistir, o impacto das suas idéias vai crescer ano após ano”

A Fundação Ryan’s Well é uma instituição de caridade canadense. Recebe doações de pessoas físicas, escolas, igrejas e corporações. Contato:

Erica Bruce

Coordenadora de Comunicação

erica@ryanswell.ca

www.ryanswell.ca

Veja lista dos projetos da Fundação Ryan’s Well que precisam de ajuda.

Crédito das fotos: Ryan’s Well Foundation.

Sobre Antonio Carlos Teixeira

Jornalista, pós-graduado em Ciências Ambientais (UFRJ); 20 anos de experiência na área de comunicação, jornalismo, edição de livros, revistas, sites, blogs e gestão de equipes; consultor/formador do primeiro Curso de Comunicação e Jornalismo Ambiental promovido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD, São Tomé e Príncipe, setembro 2014); integrante da Delegação Oficial da Câmara Brasil Alemanha para visita à IFAT Entsorga 2010 (Feira Internacional de Água, Esgoto, Lixo e Reciclagem), em Munich (Alemanha); organizador e coautor do livro “A Questão ambiental – Desenvolvimento e Sustentabilidade (Rio de Janeiro: Funenseg, 2004); autor de artigos, palestrante e mediador (congressos, debates, painéis) nas áreas de comunicação, seguro, meio ambiente, educação ambiental e sustentabilidade; coautor do projeto “Proposta de ações de educação ambiental para a Ilha Primeira, Barra da Tijuca – RJ” (Brasil, 2005); editor, videomaker e jurado de festivais de cinema ambiental.
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68 respostas para “Pequeno rei”: a história de Ryan

  1. EmanuelleMariaBagatin disse:

    Simples gesto com grandioso valor humanitário …Parabéns😊

  2. Fernanda disse:

    Estou emocionada e Ryan que nem conheço acaba de florescer mais ainda o que já existia em mim, O BEM, quero muito contribuir como faço?
    Tenho 20 anos moro em São Luis do Maranhão, não sou rica nem nada mas quero muito contribuir.

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