Comunicação, meio ambiente e sustentabilidade: o avanço brasileiro num longo caminho a percorrer

Uma análise sobre resultados da pesquisa “Sustentabilidade aqui e agora – Brasileiros de 11 capitais falam sobre meio ambiente, hábitos de consumo e reciclagem”

Por Antonio Carlos Teixeira, editor do blog TerraGaia

Introdução

Este artigo analisa resultados da pesquisa “Sustentabilidade aqui e agora – Brasileiros  de 11 capitais falam sobre meio ambiente, hábitos de consumo e reciclagem”, realizada pelo Ministério do Meio Ambiente e pela Walmart Brasil, com apoio do Instituto de Pesquisa Synovate do Brasil e da Envolverde.

A pesquisa foi feita entre os dias 27 de setembro e 13 de outubro desse ano, com 1.100 pessoas, entre 16 e 70 anos, de todas as classes, em 11 capitais brasileiras (100 em cada cidade), localizadas em todas as regiões do país: Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Porto Alegre, Belém, Salvador, Recife, Fortaleza e Goiânia.

As mulheres foram a maioria dos entrevistados: 53%. O maior público pesquisado foi entre 16 e 24 anos (27%), seguido por pessoas entre 25 e 34 anos e de 50 anos ou mais (23%). 37% relataram possuir o ensino médio completo e 43% disseram pertencer à classe C.

Ideal de felicidade

Uma das primeiras perguntas do estudo foi “O que é importante para a sua felicidade atualmente?”. 36% dos jovens de 16 a 24 anos disseram que precisam de dinheiro para comprar coisas que necessitam; 36% dos entrevistados com 50 anos ou mais responderam que o importante é ter “mais fé na capacidade humana de superar as dificuldades”.

Vinte e nove por cento dos pesquisados entre 16 e 24 anos responderam que o ideal de felicidade seria ter “mais condições para aprimorar estudos ou profissão”, enquanto que 27% dos entrevistados com 50 anos ou mais preferiram “mais tempo para conviver com família e amigos”. Nesse caso, ficam claras as expectativas de consumo e ascensão social por parte dos pesquisados mais jovens, e a valorização do relacionamento pessoal, da atitude positiva e até espiritualista do ser humano para a solução de um problema ou adversidade, entre os mais velhos.

Esse resultado nos leva a fazer uma associação muito importante que está diretamente ligada à questão ambiental e à sustentabilidade: é na faixa entre 16 e 24 anos que se concentra o foco da maioria esmagadora das campanhas de marketing voltadas para o consumo, muitas delas motivadas por pura e simples concorrência entre marcas.

Será que empresas e indústrias têm procurado realizar campanhas sobre consumo consciente em meio a essa “enxurrada” de apelo consumista que é descarregada em cima dessa parcela da juventude?

Na pergunta “Você se considera informado sobre meio ambiente ou ecologia?”, 52% se consideraram “mais ou menos informado”. Ou seja: mais da metade dos entrevistados não se mostrou plenamente consciente sobre temas ambientais ou ecológicos.

O questionamento que se faz aqui é: em que área da discussão ambiental o pesquisado se consideraria “mais informado”? Em quais temas ele se reconheceria detentor de menos informação? Como se dá essa comunicação para que ele se sinta mais ou menos informado?

Se apenas 22% disseram ser “bem informados” e singelos 4% responderam ser “muito bem informados” é sinal de que ainda temos muito a avançar nas formas de comunicação diretamente ligadas a meio ambiente e à sustentabilidade. Principalmente quando avaliamos as respostas sobre as fontes dessas informações ambientais e ecológicas.

Escolas e corporações: espaços para avançar

Para 65% dos entrevistados, tevês e rádios são as principais bases de onde vem a informação ambiental. Tecnologias de comunicação do século passado, os custos para acesso à programação desses veículos pesam menos no bolso do brasileiro, quando comparados com internet e sistemas a cabo/satélite.

As escolas apareceram com 29% das respostas, seguidas por “governos/políticos” e “jornais e revistas”, com 25% cada. O dado aqui é que a escola é identificada como um centro de informação. Mas será que, neste caso, informação foi confundida com educação? Se sim ou não, podemos ver as escolas como um instrumento que pode avançar muito ainda no Brasil em termos de base para a educação socioambiental formal, e também contribuir para aumentar as fontes de comunicação ambiental.

As escolhas pelas opções “governos/políticos” e “jornais e revistas”, ressaltam uma certa desatenção por parte das autoridades com seus cidadãos na comunicação de assuntos ambientais e na qualidade, importância e trato que dão os editores desses veículos de comunicação às pautas e informações relacionadas ao tema. Nesse caso, é importante lembrar que tanto jornais quanto revistas (impressos) são produtos que os consumidores precisam pagar para ter acesso à informação, fator importante quando da comparação com o percentual obtido na opção “TVs e rádios” da pesquisa.

Ainda entre as opções de informação ambiental, a internet e comunidades de bairro foram identificadas por 19% dos pesquisados, enquanto que empresas em geral ficaram com 9% das respostas.

Aqui temos uma dimensão do tamanho da estrada que pode ser trilhada para ampliar as opções de informação ambiental. Denota a insuficiência de ferramentas de comunicação na disponibilização e no uso de informações sobre o tema em comunidades e em ambientes corporativos. Se houver fortalecimento dessas duas pontas, pode-se ampliar e muito as possibilidades de conscientização ambiental do cidadão brasileiro. E se juntarmos aí os esforços do poder público, teremos então uma “via” por onde poderão ser disponibilizadas para o cidadão informações ambientais e relativas à sustentabilidade. Um “corredor” formado a partir da sua área residencial (comunidades, condomínios residenciais e bairros), passando pelo espaço urbano (vias, estradas, avenidas, meios de transporte) até o seu local de trabalho.

O resultado verificado em relação à internet pode ser analisado sob duas vertentes. Na primeira, como um reflexo das condições de acesso à rede, ainda insuficientes para todas as camadas e classes sociais brasileiras: se ampliá-las, as probabilidades crescem junto; na segunda, uma motivação insuficiente do cidadão para buscar informações ambientais na web. Isto é: o brasileiro se sente motivado a “consumir” esse assunto na rede? O que ele tem procurado na internet ? Quais sites ele visita com frequência? Como fazer o consumidor se sentir interessado em pesquisar temas ambientais na internet?

Um dado interessante: livros e bibliotecas não foram citados com destaque pelos pesquisados com fonte de informação ambiental ou ecológica. Por quê?

Consumo da informação: cidadãos ativos ou passivos?

Outra questão interessante que podemos refletir a partir da pesquisa é: que tipo de informação ambiental esta sendo “consumida” no Brasil? O interesse pode ser bastante variado, e passa, por exemplo, por aspectos ligados à prevenção, manejo, catástrofes, consumo, descarte, preservação, conservação, inovação tecnológica, destruição, recursos naturais, legislação, sustentabilidade, cidadania, desenvolvimento, produção, comercialização e relações entre homem e fauna-flora.

Uma questão que merece ser aprofundada é: o brasileiro assume uma postura ativa, buscando informações sobre meio ambiente que lhe interessam e/ou lhe ajudem a formar uma consciência ambiental e crítica, ou “consome” apenas o que é “servido” pela mídia?

Nesse ponto, a pesquisa destaca um importante fator capaz de ampliar a consciência ambiental do brasileiro: “Informação parece ser um dos fatores-chave para impulsionar a mudança de hábito da sociedade brasileira em prol do meio ambiente.” Se irmos mais além, podemos provocar: como o brasileiro se coloca frente à informação ambiental? Expressa uma postura ativa, indo atrás das notícias e conhecimentos que acha necessários para a sua formação reflexiva? Ou mostra-se passivo, recebendo apenas as informações que são transmitidas pelos meios de comunicação?

Passar para uma postura ativa, por exemplo, seria procurar conhecer as instituições que atuam em defesa do meio ambiente no Brasil. Nesse sentido, a pesquisa revela que a mudança de hábito é urgente: ao serem perguntados se conhecem “algum grupo, entidade ou organização que trabalha pela proteção do meio ambiente?”, mais de 70% responderam que desconhecem as instituições que trabalham com esse objetivo. A mais lembrada pelos pesquisados foi uma instituição internacional, o Greenpeace (4%). Já o Ibama, órgão federal responsável pela defesa do meio ambiente no país, teve apenas 3% das respostas.

Se o brasileiro desconhece as principais instituições ambientais do país, a pesquisa mostrou que pelo menos esta atento a alguns dilemas e discussões candentes: 59% concordaram totalmente que “qualquer mudança que o ser humano cause na natureza provavelmente vai piorar as coisas”; 53% discordaram totalmente que “a preocupação com o meio ambiente no Brasil é exagerada”; 59% concordaram que “o meio ambiente deve ter prioridade sobre o crescimento econômico”; e 59% também acharam que “só com grandes mudanças em nossos hábitos de compras, transporte e alimentação podemos evitar problemas ambientais futuros”.

Se associarmos as respostas acima ao nível de desconhecimento demonstrado sobre as instituições de defesa do meio ambiente podemos ter uma pista sobre a origem dos 52% que se consideraram “mais ou menos informado” sobre as questões ambientais.

Educação ambiental: base familiar e comunitária

Ao serem perguntados sobre quais instituições seriam capazes de influenciar mais suas ações em relação ao meio ambiente, 24% elegeram a escola, seguida por igrejas (19%), comunidades (15%) e ONGs (13%). Essa sequência na escolha dos brasileiros pesquisados demonstra que iniciativas de base familiar e comunitária podem ser uma opção para estimular ações ambientais no país.

O fato de que apenas 5% dos entrevistados identificaram as empresas como importantes organizações para desenvolvimento de ações de educação ambiental nos levam a perceber o quanto as corporações ainda podem (e devem) contribuir para a disseminação do tema entre os cidadãos.

A pesquisa revelou também o que os pesquisados achavam sobre a utilização de sacolas plásticas no comércio brasileiro, principalmente por parte dos supermercados. Para 27% dos entrevistados, a não utilização de sacolas plásticas foi a primeira de três ações importantes que os estabelecimentos comerciais deveriam fazer em prol do meio ambiente. As outras foram: criar estação de reciclagem nas lojas (20%) e comunicar quais são os produtos que ajudam a preservar o meio ambiente e a saúde (16%).

Embora ainda seja baixa a percepção dos consumidores sobre a importância de usar “ecobags”, 60% se mostraram favoráveis a apoiar uma lei que proibisse a distribuição de sacolas plásticas em supermercados e demais estabelecimentos comerciais.

Em suma: a pesquisa é louvável e demonstra que a percepção ambiental do brasileiro tem aumentado nos últimos anos. Mas ainda existe um longo caminho a percorrer, com responsabilidades que devem ser divididas por todos nós: cidadãos, corporações, governos, políticos, instituições não governamentais, órgãos públicos, comunidades, mídia, estabelecimentos…

Mãos à obra, então!

Veja a pesquisa “Sustentabilidade aqui e agora – Brasileiros  de 11 capitais falam sobre meio ambiente, hábitos de consumo e reciclagem“.

p.s. Este artigo também foi publicado no site do Nós da Comunicação.

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Sobre Antonio Carlos Teixeira

Executivo de Comunicação I Assessor Estratégico I Sustentabilidade/Baixo Carbono I Editor I Editor do blog TerraGaia //// Executive of Communication I Strategic Advisor I Sustainability/Low Carbon I Editor I TerraGaia blog Editor.
Esse post foi publicado em Comunicação, Consciência ambiental, Conservação, Consumo, Desenvolvimento sustentável, Educação ambiental, Empresas, Estudos ambientais, Responsabilidade corporativa, Responsabilidade social, Responsabilidade socioambiental, Sustentabilidade e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

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