Luz na floresta

Por Sônia Araripe, Editora de Plurale em revista
Fotos de Luciana Tancredo, da Reserva Extrativista Chico Mendes, Xapuri (Acre)

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Faz muito calor na floresta fechada. Um pouco amenizado perto do Rio Acre, mas nem por isso deixa de ser quente. Nas terras onde o seguingueiro, líder sindical e ambientalista Chico Mendes um dia retirou o sustento de sua família – e também combateu, até pagar com sua morte, a exploração de seus companheiros de floresta e a devastação da biodiversidade local – o cenário hoje está mudado. Quem poderia imaginar, naquelas épocas dos empates – como os locais chamam a criação do ambientalista, formando uma corrente humana para evitar que a floresta fosse destruída – que nem só a luta dos locais entraria para os livros. Também a chegada da luz marca a história.

Pois é assim, no calor úmido de terras em torno do município de Xapuri que começamos mais um especial na Amazônia. Depois de cerca de 45 minutos cruzando em carros com tração nas quatro rodas estradas de terra no meio de fazendas – onde os bois pastam em áreas que já sofreram interferência do homem – chegamos no primeiro lugarejo já na Reserva legal hoje batizada com o nome de quem escreveu esta região antes quase esquecida no mapa brasileiro e global.

Xapuri não chegou a se transformar em ponto turístico, até porque é bem distante para quem não vem a trabalho ou tem alguma outra missão por estas bandas: são 188 quilômetros de estrada boa, asfaltada desde Rio Branco, mas até chegar ao Acre são cerca de cinco horas de viagem de avião desde o Rio de Janeiro ou São Paulo. Desde que o homem simples, de sorriso aberto e fala mansa, cabelos e bigodes fartos cruzou o destino, Xapuri nunca mais foi a mesma. “Chico Mendes é alma deste lugar”, assegura Luis Tarjino de Oliveira, 77 anos, companheiro de luta de Chico Mendes, que se orgulha de até hoje morar praticamente cerca a cerca da casa que um dia abrigou o velho amigo. (leia mais sobre a história dele logo à frente).

Para entrar mesmo na Reserva Extrativista Chico Mendes – uma gigantesca área de 931 mil hectares, espalhada em seis municípios, Xapuri, Brasiléia, Rio Branco, Sena Madureira, Assis Brasil e Capixaba – é preciso ainda pegar um barco por horas e andar com fé no meio da floresta. Foi o que fizemos durante dois intensos dias. Não só para ouvir histórias de quem conviveu diretamente com Chico Mendes, mas também para acompanhar outro momento histórico da vida destes ribeirinhos: a chegada da luz.

Energia renovável – Até bem próximo da Reserva Extrativista, em áreas de melhor acesso, postes estão sendo fincados para levar luz elétrica. Parte do Projeto Luz para todos, menina-dos-olhos do Governo Federal, oficialmente batizado de Programa Nacional de Universalização do Acesso e Uso da Energia Elétrica, que tem realizado o sonho de muitos brasileiros de poder beber água gelada ou assistir a novela de noite. Porém, onde a floresta é fechada e uma casa é bem distante da outra, não há outra logística possível. A solução veio com da própria natureza: energia renovável, com a ajuda do sol que colore a região por muitos meses do ano.

O projeto-piloto Xapuri é uma iniciativa da Eletrobrás – também dentro do guarda-chuva do Luz para Todos – em parceria com a GTZ (Agência alemã de Cooperação Técnica). A implementação local é feita através da Eletrobrás Distribuição Acre e da contratada Vectra Engenharia, encarregada de instalar os equipamentos e fazer toda a manutenção. Ao todo, 103 locais foram atendidos pela rede: 100 são residências e outras três escolas situados em três diferentes Seringais desta imensa região – Albrácea, Dois Irmãos e Iracema.

A luz chegou à Floresta, em Xapuri, há três anos e tem mudado a realidade local. Daqui está se expandindo também para outras localidades remotas do Acre. No estado do Amazonas, outros tantos ribeirinhos também estão recebendo o mesmo kit de energia solar como parte do projeto. Se tudo der certo, a meta é que cerca de 5,5 mil famílias moradoras em outros seringais, localizados em reservas extrativistas do Acre, também possam ser beneficiadas pelo mesmo sistema. “Esta é a solução para áreas ainda não atendidas na Amazônia”, acredita Celso Matheus, diretor da Eletrobrás Distribuição Acre. Os especialistas frisam que não é correto chamar a iniciativa de energia solar, mas sim de energia fotovoltaica. Examinando o desenho – que explica como o sistema funciona – dá para entender que o sol é decisivo para gerar a energia, mas também baterias e todo um sistema bem organizado para que não falte luz. Os técnicos chamam este conjunto de sistema fotovoltaico de geração de energia elétrica.

Não basta fincar os equipamentos, contar com o sol e deixar a natureza fazer sua parte. A floresta também tem seus caprichos: além da maioria das casas estar em locais de difícil acesso, há a temporada de chuvas. Sem sol, o sistema poderia simplesmente não funcionar por um longo período. Por isso, a tecnologia prevê a instalação de baterias capazes de garantir luz mesmo nestas fases. Além disso, desde o início, os moradores aprendem que é preciso cuidar, manejar, exatamente como sempre fizeram com a Floresta Amazônica, para não faltar.

Sistemas diferentes – O projeto funciona com subsídios de recursos oficiais e está testando três diferentes sistemas de fornecimento para as famílias que moram nos seringais: corrente contínua, corrente alternada e híbrido. O engenheiro Dennys Senna, subcoordenador do Luz para Todos na Eletrobrás Acre, explica que cada morador recebe, além do kit de equipamentos (placa, bateria, inversor), também três pontos de luz e quatro lâmpadas de 12 volts. Levar o material para estes pontos não foi tarefa fácil: uma casa fica bem distante da outra, sem estradas, separadas por trilhas ou rios. As distâncias foram percorridas de barco, de carro com tração até onde era possível e também com a ajuda de cavalos e burros. Os técnicos são verdadeiros “Indiana Jones” em algumas situações. É bom lembrar que os equipamentos são pesadíssimos. “Já atravessei isso aqui com água acima da cintura” conta o jovem Artur José Pereira Júnior, da Vectra Engenharia, que está no projeto desde o início, instalando os kits e visitando as famílias. Quando a época é de chuva, até mesmo os cavalos e burros têm dificuldade de acessar alguns lugares.

Três famílias ainda receberam, de graça, geladeiras econômicas e eficientes, para serem testadas, como parte do projeto. Os aparelhos são especiais para funcionarem neste modelo de geração de energia de corrente alternada: paredes mais grossas e formato como de um freezer horizontal para melhorar a eficiência térmica e também para não perder tanto calor a cada vez que a porta fosse aberta. Por enquanto, as geladeiras ainda são um teste, parte do projeto, mas tudo indica que deverão ser doadas para os moradores.

As unidades fotovolcaicas disponibilizam a capacidade mínima de 13kWh, levando em conta mês com pouco sol. Não é igual ao acesso à rede das cidades, quando é possível deixar todas as luzes ligadas o tempo todo e os eletromésticos também. Ar-condicionado, por exemplo, não pode ser utilizado, nem outros aparelhos que puxem muita luz.

As famílias recebem instruções de como devem proceder para que não falte energia para ninguém, e também a fim de garantir a sustentabilidade do modelo: cada um precisa pagar a conta, na média de menos de R$ 3,00 por mês, mais exatamente R$ 2,80 mensais. Apesar das características específicas da região – difícil acesso, energia à base solar e consumidores de baixa renda – a meta definida no projeto-piloto é ter um serviço eficiente e de boa qualidade.

O planejamento prevê expandir para o Norte e região central do Acre, locais ainda de acesso mais difícil do que os atuais, assim como em outras áreas inacessíveis da Amazônia. Tudo o que está sendo testado e aprendido a partir do relacionamento com os consumidores da floresta servirá de lição e aprendizado para o projeto-piloto se transformar em programa para valer, avançar e ser ajustado.

Estudos até de noite – “A chegada da luz foi muito boa. Temos luz para as crianças estudarem à noite, podemos assistir televisão e até guardar os alimentos na geladeira”, conta Valdemir Ferreira de Souza, 50 anos, seguingueiro que mora com a família no Seringal Albrácea. Aqui, o sistema é o de corrente contínua. Ele conta que conheceu Chico Mendes e seu trabalho em defesa por este povo e estas terras. A esposa, Maria das Graças Feitosa de Souza (na foto, no alto, com o marido), também comemora a novidade junto aos quatro filhos. “A comida que sobra eu posso guardar na geladeira”, conta. A criançada adora assistir “Os Trapalhões” e “Silvio Santos” aos domingos.

A vida da família é simples, como a da maioria dos seringueiros e ribeirinhos por estes lados, mas não há tanto o que se queixar. Valdemir recebe um salário como aposentado e apesar de não andar muito bem de saúde, ainda complementa a renda da família com a ajuda vinda da floresta – vende o látex da borracha para a fábrica de camisinhas de Xapuri (leia mais adiante) e a coleta da castanha-do-pará de forma sustentável. A moto nova, uma moderna 125 cilindradas, é a última aquisição. Mas a geladeira, de 150 litros, é o grande “xodó” da família. “É muito bom poder guardar o leite e a comida para as crianças aqui”, conta Maria das Graças.

Ali perto, Maria José da Cunha Souza, 63 anos, também comemora a chegada da energia. Casada, oito filhos e 23 netos, todos criados na Reserva Extrativista, não trocaria sua vida pela da cidade. Nem mesmo quando ficavam praticamente no escuro por anos.

“Vivemos bem aqui”, resume. Além dos benefícios e facilidades, a luz garantiu, de quebra, uma boa economia para o orçamento familiar. “Antes, a gente gastava um bom dinheiro com velas e óleo para a lamparina”, recorda-se. Dona Maria José também ganha um salário mínimo como aposentada e sonha com o dia que também terá a sua geladeira. “Toda dona-de-casa sabe como faz falta.”

Beira do rio – No dia seguinte, de barco, uma hora a favor da corrente e duas na volta, vamos mais adiante, na região do Seringal Iracema. Encontramos Francisco Pereira Barbosa (que também esteve ao lado de Chico Mendes na defesa da floresta) e sua esposa Elair Pereira Barbosa, ambos de 63 anos. Eles têm três filhos e dois netos, todos bem instalados em uma casa ampla e bem cuidada, na beira do Rio Acre. Gente cordial e pacífica como é o povo da floresta. Dona Elair recebe o grupo com um almoço tão cheiroso quanto gentil. No cardápio, galinha caipira e pato, macarrão, feijão da roça, arroz e salada. “Quer água gelada?”, oferece Dona Elair aos convidados, feliz da vida.

O que pode parecer um simples ato de abrir e fechar a geladeira para matar a sede na cidade grande, era um sonho acalentado, distante para estes ribeirinhos. A geladeira com cara de freezer na sala garante não só a água gelada, como também o iogurte dos netos e carne para a família consumir ao longo do mês. “É uma benção! Quando eu iria imaginar ter água gelada e geladeira em casa?”, diz a dona-de-casa.

Point – Na volta pelo rio, atingimos o Seringal Dois Irmãos. Ali vive Manoel Roldão, 50 anos, pai de 12 filhos com Maria Matias da Silva, 42 anos. Vendo o movimento por aqui crescer, Seu Roldão, esperto que só, percebeu que tinha uma verdadeira galinha dos ovos de ouro na sua sala: a geladeira, artigo de luxo para muitos da região. Comprou refrigerantes e cervejas em Xapuri e abasteceu o novo complemento de renda da família. Instalou uma mesa de sinuca na parte de fora da casa e criou um novo “point” destas bandas. “Dá para fazer até R$ 500 por mês, dependendo da freguesia.

Renda – O projeto-piloto tem garantido renda e empregos. Um dos filhos da família Barbosa é barqueiro e atende a equipe de manutenção dos equipamentos solares das casas e o jovem Josiel Silva de Souza, 27 anos, enteado de Seu Roldão, foi contratado pela Vectra Engenharia, encarregada da parte de manutenção do sistema. “Estou muito contente. Conheço as pessoas todas aqui da região e estou ajudando a garantir o bom funcionamento da rede”, explica enquanto sobe no poste para ver se está tudo ok com as placas. Josiel ganha cerca de R$ 700 por mês e tem a vantagem de poder trabalhar na floresta que cresceu e conhece como a palma da mão.

Escola – Aliás, por estes lados, todos parecem fazer parte de uma grande família. Josiel é casado com a professora Sirley Soares Sodré, que leciona na Escola Asas da Floresta. Os alunos estão estudando com a luz que também chegou através do projeto-piloto Xapuri. “Eles podem ver DVDs e não precisamos mais parar a aula quando escurece. A luz também é muito importante na casa deles para reforçar as lições”, conta a professora Sirley.

Uma verdadeira revolução na vida dos jovens adolescentes. Que o digam três alunos da mesma turma do 6º ano. “A gente anda quase três horas na floresta, no escuro para poder estudar. E quando chega em casa é bom ter luz para fazer os deveres”, conta Francisca Guimarães, 13 anos. Ela sonha em ser médica e caminha na floresta junto com dois amigos: Cosmo de Souza Lima 18 anos e Gilmara Araújo Monteiro, 13 anos. São todos filhos de seringueiros da região. O tímido Cosmo nem tem ainda luz em casa: conta que também ajuda o pai no seringal de madrugada até o sol raiar e depois vai para escola caminhando com as vizinhas. Quando crescer quer ser do Exército. E Gilmara já tem luz solar, mas o pai comprou as placas antes da chegada do Programa oficial. “Estudo firme. Meu sonho é ser juíza. Quero ajudar as mulheres da região”, diz, com a resposta na ponta da língua.

Definições – A visita dos técnicos em campo traz algumas revelações. O sistema ainda precisa ser melhor azeitado, principalmente na parte da cobrança das contas. Pelas regras do Código de Defesa do Consumidor e também da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), os clientes precisam receber as contas em casa. Como a logística é complicadíssima e as distâncias a serem percorridas imensas, nem sempre as contas são entregues mensalmente. Várias das famílias visitadas estão com os pagamentos atrasados porque não estão recebendo as faturas e outros porque nem conseguiram ir até Xapuri pagar.

O coordenador da Vectra, Assur Mesquita, empresa contratada para fazer a manutenção nas residências, diz que uma opção seria quitar o pagamento quando os moradors forem à cidade fazer compras ou receber algum dinheiro. Mas isso não retira da concessionária a obrigatoriedade de entrega das contas. Mesmo que os valores sejam baixos e os custos para entrega não se paguem. A sustentabilidade do programa também precisa ser muito bem definida. A operação e manutenção de cada sistema (por família) são estimados em cerca de R$ 690 por ano. Como as contas são de cerca de R$ 2,80 por mês, é claro que não fecham. Por isso há fortes subsídios.

Mudança – “Estamos em uma fase de avaliar os resultados. Há pontos que podem sim ser melhorados”, explica Dennys Senna, subcoordenador do Luz para Todos na Eletroacre (foto), avaliando que, no geral, o projeto é bem sucedido. Um destes pontos a serem revistos é o pleito enviado à ANELL, em Brasília, para que possa ser criado um sistema que os técnicos chamam de “robusto”: em corrente alternada, mas com uma saída para corrente contínua também, o que permitirá, no futuro, instalação de geladeiras ecoeficientes a serem compradas pelos seringueiros ou compradas com a ajuda de algum programa social. Há quem defenda a doação de alguns eletrodomésticos eficientes junto com o kit para energia fotovolcaica. Outros acham que será preciso, aos poucos, fazer o programa crescer de alguma forma com suas próprias pernas: se os eletrodomésticos forem vendidos no comércio local pode incentivar a economia da região.

Um representante da ANELL, Jorge Augusto Lima Valente, esteve em campo para conhecer a realidade local. “Vou levar um relatório e iremos avaliar se o pedido apresentado de mudança no sistema é viável”, disse. Não chega a ser tão simples a decisão. Já existe um arcabouço legal autorizando o funcionamento como é hoje. Seria preciso alterá-lo. E, como se trata de um programa envolvendo recursos públicos, atendimento social e realidades muito distintas dos consumidores dos centros urbanos, será preciso pesar todos os prós e contras.

Um ponto já está certo. O projeto-piloto dá sinais de que é possível sim integrar a floresta ao resto do mundo. A meta do Luz para Todos no Acre é levar energia para 50 mil famílias. Destas, 37 mil podem ser atendidas por linhas de transmissão, sendo que 27 mil já estão recebendo energia, os demais estão em processo. “Cerca de 13 mil famílias estão em lugares distantes, de difícil acesso. É o que chamamos de sistemas isolados. Para estes casos, a energia fotovolcaica é a solução”, acredita Dennys. O processo está em curso.

No estado do Amazonas, a empresa Guarcor Solar do Brasil já foi selecionada para a parte de implementação do projeto em outros municípios. A Eletrobrás Amazonas Energia firmou contrato de 18 meses com a Guascor Solar do Brasil para instalar sistemas de minirredes em seis municípios do interior do estado. No total, 12 projetos serão executados nos municípios de Autazes, Barcelos, Beruri, Eirunepè, Maués e Novo Airão.

“Tudo o que é novo causa uma resistência inicial. Se há algumas falhas, vamos corrigi-las. Podemos melhorar a gestão. Mas o programa está cumprindo bem seus objetivos”, assegura Cláudio Monteiro, engenheiro da Divisão de Projetos Complementares da Eletrobrás, que está envolvido com a iniciativa em Xapuri desde o início. Nos despedimos da Reserva Extrativista Chico Mendes já com saudades. Das pessoas e da biodiversidade, do piar dos pássaros, da energia que a Amazônia e sua imensidão é capaz de transmitir.
***

Xapuri: cidade de Chico Mendes

O asfalto da BR 317 encurtou – e muito – a viagem até Xapuri. Hoje, se não for um dia de trânsito, em cerca de duas horas é possível percorrer a distância entre a capital Rio Branco e a cidade natal de Chico Mendes. Nem sempre foi assim. Quando o italiano Michele Vatollo – dono da Villa Verde, uma das melhores pousadas do município – chegou por aqui, há quase 12 anos, era um mar de lama.

“Dá para acreditar?”, mostra, até hoje incrédulo o estrangeiro que guarda a foto do ônibus que o trouxe da capital Rio Branco praticamente mergulhado na lama, o que um dia se chamou de estrada. Veio para fazer trabalhos humanitários, depois de uma peregrinação por vários países: casou-se com uma nativa, tiveram filhos e deixou para trás a família e a vida completamente diferente da região de fronteira da Itália com os Alpes, na Áustria. Garante que não se arrepende. “É um lugar bom para se viver, de pessoas cordiais, muito bom para se criar filhos.”

Não há dúvida. Xapuri é pequena, simples, mas com um povo simpático para os turistas e forasteiros. São cerca de 15 mil habitantes. A cidade já tem até conexão sem fio para Internet, como parte de investimentos em polo digital, mas tem pouco trabalho para os locais. A vizinha Brasiléia, fronteira da Bolívia, atrai mais turistas e atenções por conta da zona franca. Uma única fábrica, bem na entrada de Xapuri, emprega locais: produz camisinhas a partir do látex de alta qualidade dos seringais da região.

No entanto, as duas principais atrações turísticas do município – a casa onde viveu Francisco Alves Mendes Filho e sua família, mais conhecido como Chico Mendes, e o Centro de Memória Chico Mendes – estão lacrados. Os moradores explicam que foi “o pessoal do governo” que fechou. Na verdade, a imprensa noticiou há poucos meses que por trás do fechamento do que funcionava como se fosse uma Fundação está a falta de comprovação no uso de verbas públicas por parte da família do ambientalista.

Procuramos e bem próximo da casa da família de Chico Mendes encontramos um companheiro de luta do líder sindical, responsável por fundar o Partido dos Trabalhadores na região. “Participei da luta com ele”, recorda-se, emocionado, Luis Tarjino de Oliveira, 77 anos (foto). De boa conversa, vai logo desfiando a sua. Nascido no Ceará, foi parar no Acre atrás de emprego nos seringais. Foi assim que conheceu o vizinho e amigo. “Jogamos muita bola juntos. Acompanhei Chico no Sindicato dos Trabalhadores e também nos empates”, conta. Por empate entenda-se uma estratégia para “abraçar” a floresta e evitar o avanço dos fazendeiros e destruição da biodiversidade. A luta de Chico Mendes pela defesa da floresta foi tão intensa que ele recebeu o Global 500, oferecido pela ONU aos principais líderes na defesa pelo meio ambiente.

Seu Tarjino se levanta da cadeira de balanço e mostra, na parede, um retrato esmaecido destes tempos. Da borracha tirou sustento para criar nove filhos. Aposentou-se e hoje, se tratando de hanseníase, aumenta o sustento com um secos e molhados na varanda de casa. Vende de roupas a utensílios de cozinha. Quando vê a fotógrafa, pede para se arrumar melhor. Procura no armário uma camisa com a foto do velho amigo – como se fosse um troféu bem guardado – e reaparece, trazendo junto um chapelão de abas largas. “Agora eu estou pronto para a foto.” Se queixa dos políticos atuais, das regras que proíbem plantações dentro da Reserva Extrativista e do fechamento da casa e do Centro de Memória. Logo se emociona ao falar como foi o assassinato de Chico, em dezembro de 1988, aos 44 anos. O fazendeiro Darly Alves da Silva e seu filho Darcy, inconformados com a força de articulação do ambientalista na região, foram os mandantes do crime: chegaram a ser condenados a 19 anos de prisão, mas hoje estão soltos. A gota d`água para o crime foi a desapropriação do Seringal Cachoeira, que pertencia a Darly, e passou a ser área de Reserva protegida.

“A morte dele foi bárbara. O Chico só queria defender a floresta e a gente. Acabou ali, assassinado na porta dos fundos de casa, quando ia tomar banho. Foi uma covardia”, diz o companheiro de luta. Agradece a visita, pede licença e volta para a cadeira de balanço na varanda de casa. Até a chegada do próximo turista curioso.

*A equipe de Plurale viajou a convite da Eletrobrás, com o apoio local da Eletrobrás Distribuição Acre e da Vectra Engenharia.

Reportagem publicada no site da Edição n. 19, Especial de três anos, da Plurale em revista

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Sobre Antonio Carlos Teixeira

Executivo de Comunicação I Assessor Estratégico I Sustentabilidade/Baixo Carbono I Editor I Editor do blog TerraGaia //// Executive of Communication I Strategic Advisor I Sustainability/Low Carbon I Editor I TerraGaia blog Editor.
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