Japão: catástrofe, êxodo e perigo nuclear no Círculo de Fogo

Uma muralha de água atinge com fúria a costa nordeste do Japão: a tsunami do "11 de Março" japonês

“You running and you running

And you running away

You running and you running

But you can’t run away from yourself

Can’t runaway from yourself,

Can’t runaway from yourself,

Can’t runaway from yourself…” Bob Marley

 

Atualizada em 20/4/2011

Um terremoto, uma tsunami, casas e refinarias em chamas, três reatores nucleares seriamente avariados, uma nuvem de radiação em curva ascendente levada pelos céus da Ásia - com risco de dirigir-se perigosamente para outros continentes – e o vazamento de material radioativo para o mar. Terra, água, fogo e ar… O saldo do “11 de Março” no Japão parece mais fruto de uma revolta dos quatro principais elementos naturais do planeta. Uma dor sem fim, que nos remete àqueles tristes dias 6 e 9 de agosto de 1945. Mas, diferentemente daquele sombrio período de 66 anos atrás, a dor, a morte e a destruição não vieram (diretamente) das mãos do homem.

O que assistimos ao vivo foi um “mini 2012” no Japão, numa alusão ao filme catástrofe dirigido por Roland Emmerich em 2009: fendas enormes nas estradas, ondas gigantescas invadindo cidades (Rikuzentakata foi riscada do mapa), paredes de água e massas de detritos arrastando com uma força descomunal carros, navios, aviões, casas e tudo mais que estivesse no caminho 40 km adentro da Ilha de Honshu, a maior do arquipélago japonês e onde está localizada a capital Tóquio. Sob o céu nipônico, o que se viu foram prédios em ruínas, metais retorcidos, pessoas em pânico, mais de 14 mil mortos, quase três mil feridos, 13.800 desaparecidos, uma multidão de desabrigados e um exército de sobreviventes fugindo de lugares devastados, sem água, comida, luz ou combustível.

Chamas ardem na cidade de Natori, província de Miyagi, após a devastação causada pela tsunami: Japão sob a ira dos quatro elementos

O pânico provocado pela dupla catástrofe natural e intensificado pelas oito réplicas do terremoto (em magnitudes que variaram de 6.1 a 7.1 na escala Richter) e pelas explosões nos reatores 1, 2 e 3 da usinas nuclear de Fukushima Daiichi provocou uma debandada que tomou conta das cidades do centro-nordeste da Ilha de Honshu: Sendai, Okumamachi, Namie, Futaba, Okuma, Tomioka, Naraha, Otsuchi, Kamaichi, Iwanuma, Kesennuma, Tochigi, Odaiba, Chiba, Tóquio e Yokohama tiveram que ser esvaziadas por japoneses e estrangeiros. Cerca de 600 mil pessoas foram deslocadas de suas casas (das mais de 191 mil construções destruídas ou danificadas, 20 mil residências foram perdidas), num êxodo jamais visto no país, indo em direção ao sul ou para fora do Japão. As imagens chocam e mostram como somos frágeis perante a natureza.

Para quem ficou, como os “50 de Fukushima” (soldados, bombeiros e técnicos que formam um grupo de 300 homens que se revezam em turnos de 50 pessoas na luta para conter mais vazamentos nos reatores da usina), a morte pela exposição à altas doses de radiação parece inevitável.

A fúria provocada pelo terremoto faz jus à fama da região, apelidada de Círculo (ou Anel) de Fogo do Oceano Pacífico: uma titânica área em forma de ferradura com 40 mil quilômetros de extensão, que abriga cerca de 450 vulcões (75% de todos os existentes no mundo, ativos ou latentes do planeta), 14 fossas oceânicas e é ponto de conjunção de sete placas tectônicas. Seu raio de ação atinge mais de 20 países localizados na Ásia, Oceania e Américas.

O Círculo de Fogo do Pacífico: gigantesca área de 40 mil km que envolve 450 vulcões, sete placas tectônicas e 14 fossas oceânicas

Nos últimos sete anos, pelo menos cinco grandes terremotos abalaram as estruturas de cidades e países da região: Sumatra (na Indonésia, em 2004, 2009 e 2010), Christchurch (Nova Zelândia, fevereiro desse ano) e agora a 130 quilômetros da costa de Sendai, no Japão. Detalhe: tanto o terremoto ocorrido em Sumatra em 2004 (que gerou a tsunami que matou mais de 230 mil pessoas em 12 países no dia 26 de dezembro), quanto os de Christchurch e Sendai são considerados “incomuns” porque foram registrados fora das chamadas zonas de subducção, locais onde uma placa tectônica mergulha sob outra. E foram abalos de magnitudes 9.3, 6.1 e 9, respectivamente, na escala Richter. Até o dia 11 de março, Sendai, capital da província de Myiagi, lar de um milhão de japoneses, era considerada por sismólogos e cientistas japoneses como uma região de perigo “relativamente modesto” para a ocorrência de terremotos.

A discussão aqui levantada não se refere exclusivamente a perigos relacionados ao uso de determinada fonte de energia, no caso, a nuclear, e do nível de segurança de suas usinas. O que se salienta é se tais construções (cujos riscos são considerados muito elevados em caso de acidentes) têm condições de suportar impactos de eventos extremos provocados pelas forças naturais que regem a Terra.

Fukushima é um exemplo infeliz de que nossas construções não são capazes de assimilar o impacto de fenômenos terrestres extremos.

O resultado: pelo menos 11 mil toneladas de água contaminada dos reatores danificados (com nível de radiação centenas de vezes maior do que a “aceitável” pelas autoridades internacionais) serão despejadas no Oceano Pacífico. Mesmo que essa radioatividade se dilua no mar, antes, tem grandes possibilidades de se fixar no leito marinho e nos organismos aquáticos. Especialistas com o professor Thomas Jung, do Centro de Proteção da Radiação da Alemanha, acreditam que parte da radiação irá se acumular na cadeia alimentar.

Isto significa que os efeitos dessa radiação jogada no mar perdurarão por muitos anos, talvez décadas, com risco muito alto de contaminar agentes e consumidores da rede trófica marinha.

Inclusive nós, seres humanos.

A discussão pode ser ampliada ainda mais se levarmos em consideração a relação do aumento de eventos – no caso específico, terremotos - em áreas “incomuns” com as estimativas atuais de suas ocorrências dentro dos estudos, pesquisas e “previsões” que norteiam a sismologia contemporânea.

Explosão na usina nuclear de Fukushima Daiichi, 12 de março: medo da radioatividade provocou a fuga de milhares de japoneses do nordeste do país

Não podemos fugir de nós mesmos. Nem das nossas responsabilidades para com a vida em escala planetária. Nos locais mais atingidos pela tsunami, fogueiras e solidariedade têm ajudado as pessoas a enfrentar a dor da perda de entes queridos e de bens materiais e a se aquecerem contra o implacável frio do inverno asiático. Mas talvez um dos mais belos exemplos de fraternidade tenha vindo de Kandahar. Pobre e devastada por anos de guerra, essa província do Afeganistão doou 50 mil dólares ao Japão. “Um gesto de carinho”, disseram os afegãos, em solidariedade à dramática situação japonesa.

As cenas de devastação e dos escombros provocados pela tsunami são impactantes. Difícil não ficar penalizado com tamanha destruição e dor. Parecem mesmo ter saído de filmes de ficção que Hollywood tem costumado lançar nos últimos anos. Oxalá a raça humana, em nível global, não tenha que passar por situação tão sofrida quanto a que está vivendo os nossos irmãos japoneses. Os impactos seriam muito dolorosos e colocariam em sério risco o futuro da nossa civilização no planeta.

Sobrevivente da tsunami caminha em meio a escombros e metais retorcidos: Oxalá a Terra não passe por devastação e dor semelhante ao "mini 2012" japonês

O tempo é de reflexão. Quem sabe não nos espelhamos no exemplo japonês que, mesmo sob uma situação dramática, dá demonstração de civilidade e coloca os interesses coletivos acima dos individuais.

Se algum dia for preciso…

Sobre Antonio Carlos Teixeira

Jornalista, pós-graduado em Ciências Ambientais, consultor de comunicação, meio ambiente e sustentabilidade
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Uma resposta para Japão: catástrofe, êxodo e perigo nuclear no Círculo de Fogo

  1. Lauriane Ribeiro Barbosa disse:

    essa foi uma tragedia chocante para todos nós

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